Que cidade tam forte, por ventura
Auera que reſiſta, ſe Lisboa
Não pede reſistir aa força dura
Da gente, cuja fama tanto voa.
Ia lhe obedece toda a Eſtremadura,
Obidos, Alanquer, por onde ſoa
O tom das freſcas agoas, entre as pedras,
Que murmurando laua, & Torres vedras.
E vos tambem, o terras transtaganas,
Affamadas co dom da flaua Ceres,
Obedeceis aas forças mais que humanas,
Entregando lhe os muros, & os poderes.
E tu laurador Mouro, que te enganas,
Se ſustentar a fertil terra queres.
Que Eluas, & Moura, & Serpa conhecidas,
E Alcaçare do ſal, eſtão rendidas.
Eis a nobre Cidade, certo aſſento,
Do rebelde Sertorio antigamente,
Onde ora as agoas nitidas de argento,
Vem ſuſtentar de longo a terra, & a gente,
Pelos arcos reaes, que cento & cento
Nos ares ſe aleuantão nobremente.
Obedeceo, por meio & ouſadia
De Giraldo, que medos não temia.
Ia na cidade Beja vay tomar,
Vingança de Trancoſo deſtruida,
Affonſo que não ſabe ſoſegar,
Por eſtender co a fama a curta vida:
Não ſe lhe pede muito ſustentar
A Cidade: mas ſendo ja rendida,
Em toda a couſa viua, a gente yrada,
Prouando os fios vay da dura eſpada.
Com eſtas ſojugada foy Palmella,
E a piſcoſa Cizimbra, & juntamente,
Sendo ajudado mais de ſua eſtrella,
Desbarata hum exercito potente:
Sentio o a Villa, & vio o a ſerra della,
Que a ſocorrella vinha deligente.
Pela fralda da ſerra deſcuydodo,
Do temeroſo encontro inopinado.
O Rei de Badajoz era alto Mouro,
Com quatro mil cauallos furioſos,
Innumeros piões, darmas & de curo
Guarnecidos, guerreiros & luſtroſos:
Mas qual no mes de Maio o brauo Touro
Cos ciumes da vaca, arreceoſos,
Sentindo gente o bruto, & cego amante
Saltea o deſcuidado caminhante.
Deſta arte Affonſo ſubito moſtrado,
Na gente da, que paſſa bem ſegura,
Fere, mata, derriba denodado,
Foge o Rei Mouro, & ſo da vida cura,
Dum Panico terror todo aſombrado,
So de ſeguillo o exercito procura.
Sendo eſtes que fizerão tanto aballo,
Nomais que ſo ſeſenta de cauallo.
Logo ſegue a victoria ſem tardança,
O grão Rei incanſabil, ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja vſança
Era andar ſempre terras conquiſtando,
Cercar vay Badajoz, & logo alcança
O fim de ſeu deſejo, pelejando
Com tanto esforço & arte, & valentia,
Que a fez fazer aas outras companhia.
Mas o alto Deos, que pera longe guarda,
O caſtigo daquelle que o mereçe,
Ou pera que ſe emmende aas vezes tarda,
Ou por ſegredos que homem não conheçe,
Se ate qui ſempre o forte Rei reſguarda,
Dos perigos a que elle ſe offereçe.
Agora lhe não deixa ter defeſa,
Da maldição da mãy que estaua preſa.
Que eſtando na cidade que cercâra,
Cercado nella foy dos Lioneſes,
Porque a conquiſta della lhe tomâra,
De Lião ſendo, & não dos Portugueſes.
A pertinacia aqui lhe custa cara,
Aſsi como acontece muytas vezes,
Que em ferros quebra as pernas, indo aceſo
Aa batalha onde foy vencido & preſo.