O famoſo Pompeyo não te pene,
De teus feitos illuſtres a ruyna,
Nem ver que a juſta Nemeſis ordene,
Ter teu ſogro de ti victoria dina,
Poſto que o frio Faſis, ou Syene
Que pera nenhum cabo a ſombra inclina:
O Bootes gellado, & a linha ardente,
Temeſſem o teu nome geralmente.

Poſto que a rica Arabia, & que os feroces
Eniocos, & Colcos, cuja fama
O Veo dourado eſtende: & os Capadoçes,
E Iudea, que hum Deos adora & ama,
E que o molles Sofenos, & os Atroces,
Silicios, com a Armenia, que derrama,
As agoas dos dous Rios, cuja fonte
Estâ noutro mais alto & ſancto Monte.

E poſto em fim que deſdo mar de Atlante,
Ate o Scitico Tauro, monte erguido
Ia vencedor te viſſem, não te eſpante
Se o campo Emathio ſo te vio vencido,
Porque Affonſo veras ſoberbo & ouante,
Tudo render, & ſer deſpois rendido.
Aſsi o quis o conſelho alto celeſte,
Que vença o ſogro a ti, & o genro a este.

Tornado o Rei ſublime finalmente,
Do diuino juyzo caſtigado,
Deſpois que em Santarem ſoberbamente,
Em vão dos Sarracenos foy cercado.
E deſpois que do martyre Vicente,
O ſanctiſsimo corpo venerado.
Do ſacro promontorio conhecido,
Aa cidade Vliſſea foy trazido.

Porque leuaſſe auante ſeu deſejo,
Ao forte filho manda o laſſo velho,
Que aas terras ſe paſſaſſe dalentejo,
Com gente, & co beligero aparelho:
Sancho, desforço & danimo ſobejo,
Auante paſſa, & faz correr vermelho,
O rio que Seuilha vay regando,
Co ſangue mauro, barbaro & nefando.

E com eſta victoria cobiçoſo,
Ia não deſcanſa o moço ate que veja,
Outro eſtrago como este, temeroſo
No barbaro que tem cercado Beja.
Não tarda muito o Principe ditoſo,
Sem ver o fim daquillo que deſeja.
Aſsi eſtragado o Mouro, na vingança
De tantas perdas poem ſua eſperança.

Ia ſe ajuntão do monte, a quem Meduſa
O corpo fez perder, que teue o Ceo:
Ia vem do promontorio de Ampeluſa,
E do Tinge que aſſento foy de Anteo.
O morador de Abila não ſe eſcuſa,
Que tambem com ſuas armas ſe moueo:
Ao ſom da Mauritana & ronca tuba,
Todo o Reino que foy do nobre Iuba.

Entraua com toda esta companhia,
O Miralmomini em Portugal
Treze Reis mouros leua de valia,
Entre os quaes tem o ceptro Imperial:
E aſsi fazendo quanto mal podia,
O que em partes podia fazer mal.
Dom Sancho vay cercar em Santarem,
Porem não lhe ſocede muito bem.

Dalhe combates aſperos,fazendo
Ardis de guerra mil, o Mouro yroſo,
Não lhe aproueita ja trabuco horrendo,
Mina ſecreta, Ariete forçoſo:
Porque o filho de Affonſo, não perdendo
Nada do esforço, & acordo generoſo,
Tudo prouê com animo & prudencia,
Que em toda a parte ha esforço & reſiſtencia

Mas o velho a quem tinhão ja obrigado
Os trabalhoſos annos, ao ſoſego,
Eſtando na Cidade, cujo prado
Enuerdecem as agoas do Mondego:
Sabendo como o filho està cercado,
Em Santarem, do Mauro pouo cego,
Se parte diligente da Cidade,
Que não perde a preſteza co a idade.