Morto despois Affonſo lhe ſucede
Sancho ſegundo, manſo & deſcuidado,
Que tanto em ſeus deſcuidos ſe deſmede,
Que de outrem quẽ mandaua era mandado,
De gouernar o Reino que outro pede,
Por cauſa dos priuados foi priuado,
Porque como por elles ſe regia,
Em todos os ſeus vicios conſentia.

Não era Sancho não tam deſoneſto,
Como Nero, que hum moço recebia
Por molher, & deſpois horrendo incesto,
Com a mãy Agripina cometia:
Nem tam cruel aas gentes & moleſto,
Que a cidade queimaſſe onde viuia,
Nem tam mao como foi Hedio gabàlo,
Nem como o mole Rei Sardanapâlo.

Nem era o pouo ſeu tiranizado,
Como Sicilia foy de ſeus tiranos,
Nem tinha como Phalaris achado,
Genero de tormentos inhumanos:
Mas o Reino de altiuo, & coſtumado
A ſenhores em tudo ſoberanos.
A Rei não obedece, nem conſente,
Que não for mais que todos excellente.

Por eſta cauſa o Reino gouernou,
O Conde Bolonhes, deſpois alçado
Por Rei, quando da vida ſe apartou,
Seu yrmão Sancho, ſempre ao ocio dado
Eſte que Affonſo o brauo ſe chamou,
Despois de ter o Reino ſegurado:
Em dilatalo cuida, que em terreno
Não cabe o altiuo peito tam pequeno.

Da terra dos Algarues, que lhe fora
Em caſamento dada, grande parte,
Recupêra co braço, & deita fora
O Mouro mal querido ja de Marte:
Este de todofez liure & ſenhora
Luſitania,com força & bellica arte:
E acabou de oprimir a nação forte,
Na terra que aos de Luſo coube em ſorte.

Eis deſpois vem Dinis, que bem pareçe,
Do brauo Affonſo eſtirpe nobre & dina,
Com quem a fama grande ſe eſcureçe,
Da liberalidade Alexandrina.
Co este o Reino proſpero floreçe,
(Alcançada ja a paz aurea diuina)
Em constituições, leis & costumes,
Na terra ja tranquila claros lumes.

Fez primeiro em Coimbra exercitarſe,
O valeroſo officio de Minerua,
E de Helicona as Muſas fez paſſarſe,
A piſar de Mondego a fertil erua:
Quanto pode de Athenas deſejarſe,
Tudo o ſoberbo Apolo aqui reſerua.
Aqui as capellas da tecidas de ouro,
Do Bacaro, & do ſempre verde louro.

Nobres villas de nouo edificou,
Fortalezas, caſtellos muy ſeguros,
E quaſi o Reino todo reformou,
Com edificios grandes, & altos muros:
Mas deſpois que a dura Atropos cortou,
O fio de ſeus dias ja maduros:
Ficoulhe o filho pouco obediente,
Quarto Affonſo: mas forte & excelẽte:

Eſte ſempre as ſoberbas Caſtelhanas,
Co peito deſprezou firme & ſereno,
Porque não he das ſorças Luſitanas,
Temer poder maior, por mais pequeno
Mas porem quando as gentes Mauritanas,
A poſſuir o Eſperico terreno.,
Entrarão pelas terras de Caſtella,
Foy o ſoberbo Affonſo a ſocorrella.

Nunca com Semirâmis, gente tanta
Veio ôs campos Ydaſpicos enchendo,
Nem Atila, que Italia toda eſpanta,
Chamandoſe de Deos açoute horrendo.
Gottica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno barbaro eſtupendo,
Co poder exceſsiuo de Granada,
Foy nos campos Tarteſios ajuntada.