E vendo o Rei ſublime Caſtelhano,
A forca inexpugnabil, grande & forte,
Temendo mais o fim do pouo Hispano,
Ia perdido hũa vez, que a propria morte
Pedindo ajuda ao forte Luſitano,
Lhe mandaua a cariſsima conſorte,
Molher de quem a manda, & filha amada
Daquelle a cujo Reino foi mandada.
Entraua a fermoſiſsima Maria,
Polos paternais paços ſublimados,
Lindo o geſto: mas fora de alegria,
E ſeus olhos em lagrimas banhados,
Os cabellos Angelicos trazia,
Pelos eburneos hombros eſpalhados:
Diante do Pay ledo, que a agaſalha,
Estas palauras tais chorando eſpalha.
Quantos pouos a terra produzio
De Africa toda gente fera & estranha,
O grão Rei de Marrocos conduzio
Pera vir poſſuir a nobre Eſpanha:
Poder tamanho junto não ſe vio,
Despois que o ſalſo Mar a terra banha.
Trazem ferocidade, & furor tanto,
Que a viuos medo, & a mortos faz eſpanto.
Aquelle que me deſte por marido,
Por defender ſua terra amedrontada,
Co pequeno poder, offerecido
Ao duro golpe eſtà, da Maura eſpada,
E ſe não for contigo ſocorrido,
Verme as delle & do Reino ſer priuada,
Viuua & triſte, & posta em vida eſcura,
Sem marido, ſem Reino, & ſem ventura.
Por tanto, ô Rei, de quem com puro medo,
O corrente Muluca ſe congella,
Rompe toda a tardança, acude cedo,
Aa miſeranda gente de Caſtella.
Se eſſe gesto que moſtras claro & ledo,
De pay o verdadeiro amor aſſella:
Acude & corre pay, que ſe não corres,
Pode ſer que não aches quem ſocorres.
Não de outra ſorte a timida Maria
Falando eſtá, que a triſte Venus, quando
A Iupiter ſeu pay fauor pedia,
Pera Eneas ſeu filho, nauegando,
Que a tanta piedade o comouia,
Que caido das mãos o rayo infando.
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Peſandolhe do pouco que lhe pede.
Mas ja cos eſquadrões da gente armada,
Os Eborenſes campos vão qualhados,
Luſtra co Sol o arnes, a lança, a eſpada,
Vão rinchando os cauallos jaezados:
A canora trombeta embandeirada
Os corações aa paz acoſtumados:
Vay às fulgentes armas incitando
Polas concauidades retumbando.
Entre todos no meio ſe ſublima,
Das inſignias Reais acompanhado,
O vaſeroſo Affonſo, que por cima
De todos, leua o collo aleuantado,
E ſomente co geſto esforça & anima,
A qualquer coração amedrontado.
Aſsi entra nas terras de Castella,
Com a filha gentil Rainha della.
Iuntos os dous Affonſos finalmente,
Nos campos de Tarifa, eſtão defronte
Da grande multidão da cega gente,
Pera quem ſam pequenos campo & monte.
Não ha peito tão alto & tam potente,
Que de deſconfiança não ſe afronte,
Em quanto não conheça, & claro veja,
Que co braço dos ſeus Chriſto peleja.
Eſtão do Agar os netos caſi rindo,
Do poder dos Chrisſtãos fraco & pequeno,
As terras como ſuas repartindo,
Ante mão, entre o exercito Agareno:
Que com titulo falſo poſſuindo
Eſtà o famoſo nome Sarraceno.
Aſsi tambem com falſa conta & nua,
Aa nobre terra alhea chamão ſua.