Qual o membrudo & barbaro Gigante,
Do Rei Saul, com cauſa tam temido,
Vendo o Paſtor inorme eſtar diante,
So de pedras & esforço apercebido,
Com palauras ſoberbas o arrogante,
Despreza o fraco moço mal veſtido:
Que rodeando a funda o deſengana,
Quanto mais pode a Fê que a força humana.
Desta arte o Mouro perfido deſpreza,
O poder dos Christãos, & não entende,
Que eſtà ajudado da alta fortaleza,
A quem o Inferno horrifico ſe rende.
Co ella o Castelhano, & com deſtreza,
De Marrocos o Rei comete & offende.
O Portugues que tudo eſtima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.
Eis as lanças & eſpadas retenião,
Por cima dos arneſes, brauo eſtrago,
Chamão (ſegundo as leis que ali ſeguião,)
Hũs Mafamede, & os outros Sanctiago,
Os feridos com grita o Ceo ferião,
Fazendo de ſeu ſangue bruto lago,
Onde outros meios mortos ſe afogauão,
Quando do ferro as vidas eſcapauão.
Com esforço tamanho eſtrue & mata,
O Luſo ao Granadil, que em pouco eſpaço,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defeſa, ou peito de aço:
De alcançar tal victoria tam barata,
Inda não bem contente o forte braço,
Vay ajudar ao brauo Caſtelhano,
Que pelejando eſtà co Mauritano.
Ia ſe hia o Sol ardente recolhendo,
Pera a caſa de Thetis, & inclinado,
Pera o Ponente o veſpero trazendo,
Estaua o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro grande & horẽdo
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortindade, que a memoria,
Nunca no mundo vio tam gram victoria.
Não matou a quarta parte o forte Mario,
Dos que morrerão neſte vencimento,
Quando as agoas co ſangue do aduerſario,
Fez beber ao exercito ſedento,
Nem o Peno aſperiſsimo contrario,
Do Romano poder de naſcimento:
Quando tantos matou da illustre Roma,
Que alqueires tres de aneis dos mortos toma.
E ſe tu tantas almas ſo podeſte,
Mandor ao Reino eſcuro de Cocito,
Quando a ſancta Cidade desfizeſte
Do pouo pertinaz no antigo rito:
Permiſſam & vingança foy celeſte,
E não força de braço, o nobre Tito,
Que aſsi dos Vates foy profetizado,
E despois por I E S V certificado.
Paſſada eſta tão prospera victoria,
Tornado Affonſo aa Luſitana terra,
A ſe lograr da paz com tanta gloria,
Quanta ſoube ganhar na dura guerra,
O caſo triste & dino da memoria,
Que do ſepulchro os homẽs deſenterra,
Aconteceo da miſera, & mezquinha
Que deſpois de ſer morta foy Rainha.
Tu ſo, tu puro Amor com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deſte cauſa aa moleſta morte ſua,
Como ſe fora perfida inimiga:
Se dizem fero Amor que a ſede tua,
Nem com lagrimas triſtes ſe mitiga:
E porque queres aſpero & tirano
Tuas aras banhar em ſangue humano.
Eſtauas linda Ines poſta em ſoſego
De teus annos, colhendo doçe fructo,
Naquelle engano da alma, ledo & cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos ſaudoſos campos do Mondego,
De teus fermoſos olhos nunca enxuto,
Aos montes inſinando, & âs eruinhas
O nome que no peito eſcripto tinhas.