Do teu Principe ali te reſpondião,
As lembranças que na alma lhe morauão,
Que ſempre ante ſeus olhos te trazião,
Quando dos teus fermoſos ſe apartauão
De noite em doçes ſonhos, que mentião,
De dia em penſamentos que voauão.
E quanto em fim cuidaua, & quanto via,
Eram tudo memorias de alegria.
De outras bellas ſenhoras, & Princeſas,
Os deſejados tâlamos engeita,
Que tudo em fim, tu puro amor desprezas,
Quando hum gesto ſuaue te ſogeita:
Vendo estas namoradas eſtranhezas,
O velho pay ſeſudo, que reſpeita
O murmurar do pouo, & a fantaſia
Do filho, que caſarſe não queria.
Tirar Ines ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preſo,
Crendo co ſangue ſô da morte indina,
Matar do firme amor o fogo aceſo:
Que furor conſentio, que a eſpada fina,
Que pode ſustentar o grande peſo
Do furor Mauro, foſſe aleuantada,
Contra hũa fraca dama delicada?
Trazião a os horrificos algozes,
Ante o Rei, ja mouido a piedade:
Mas o pouo com falſas, & ferozes
Razões, aa morte crua o perſuade:
Ella com tristes & piedoſas vozes,
Saidas ſô da magoa, & ſaudade
Do ſeu Principe, & filhos que deixaua,
Que mais que a propria morte a magoaua.
Pera o Ceo criſtalino aleuantando,
Com lagrimas os olhos piedoſos,
Os olhos, porque as mãos lhe eſtaua atando,
Hum dos duros miniſtros riguroſos.
E deſpois nos mininos atentando,
Que tam queridos tinha, & tam mimoſos,
Cuja orfindade como mãy temia,
Pera o auô cruel aſsi dizia.
Se ja nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de naſcimento,
E nas aues agreſtes, que ſomente
Nas rapinas aerias tem o intento,
Com pequenas crianças vio a gente,
Terem tam piadoſo ſentimento,
Como co a mãy de Nino ja moſtrârão,
E cos yrmãos que Roma edificàrão.
O tu que tẽs de humano o geſto & o peito
(Se de humano he, matar hũa donzella
Fraca & ſem força, ſo por ter ſubjeito
O coração, a quem ſoube vencella)
A eſtas criançinhas tem reſpeito,
Pois o não tẽs aa morte eſcura della,
Mouate a piedade ſua & minha,
Pois te não moue a culpa que não tinha.
E ſe vencendo a Maura reſiſtencia,
A morte ſabes dar com fogo & ferro,
Sabe tambem dar vida com clemencia,
A quem pera perdela não fez erro:
Mas ſe to aſsi merece eſta inocencia,
Poem me em perpetuo & miſero deſterro,
Na Scitia fria, ou la na Lybia ardente,
Onde em lagrimas viua eternamente.
Poem me onde ſe vſe toda a feridade,
Entre Liões, & Tigres, & verey
Se nelles achar poſſo a piedade
Que entre peitos humanos não achey:
Ali co amor intrinſeco & vontade,
Naquelle por quem mouro, criarey
Eſtas reliquias ſuas que aqui viſte,
Que refrigerio ſejão da mãy triste.
Queria perdoarlhe o Rei benigno,
Mouido das palauras que o magoão:
Mas o pertinaz pouo, & ſeu deſtino
(Que deſta ſorte o quis) lhe não perdoão,
Arrancão das eſpadas de aço fino,
Os que por bom tal feito ali apregoão,
Contra hũa dama, ô peitos carniceiros
Feros vos amoſtrais, & caualleiros?