Beatriz era a filha, que caſada
Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede,
Por filha de Fernando reputada,
Se a corrompida fama lho concede.
Com esta voz Caſtella aleuantada,
Dizendo que eſta filha ao pay ſucede:
Suas forças ajunta pera as guerras
De varias regiões & varias terras.
Vem de toda a prouincia que de hum Brigo,
(Se foy) ja teue o nome diriuado
Das terras que Fernando, & que Rodrigo
Ganharão do tirano & Mauro eſtado:
Não eſtimão das armas o perigo,
Os que cortando vão co duro arado
Os campos Lioneſes, cuja gente,
Cos Mouros foi nas armas excellente.
Os Vandalos, na antiga valentia
Ainda confiados,ſe ajuntauão
Da cabeça de toda Andaluzia,
Que do Goadalquibir as agoas lauão,
A nobre Ilha tambem ſe apercebia,
Que antigamente os Tirios habitauão:
Trazendo por inſignias verdadeiras
As Herculeas colunas nas bandeiras.
Tambem vem la do Reino de Toledo,
Cidade nobre & antiga, a quem cercando
O Tejo em torno vay ſuaue & ledo,
Que das ſerras de Conca vem manando:
A vos outros tambem não tolhe o medo,
O ſordidos Galegos, duro bando,
Que pera reſistirdes, vos armastes,
Aaquelles, cujos golpes ja prouastes.
Tambem mouem da guerra as negrasfurias,
A gente Bizcainha, que careçe
De polidas razões, & que as injurias
Muito mal dos estranhos compadeçe:
A terra de Guipuſcua, & das Aſturias
Que com minas de ferro ſe ennobreçe,
Armou delle, os ſoberbos matadores,
Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores.
Ioane, a quem do peito o eforço creçe,
Como a Sariſam Hebreo da guedelha,
Poſto que tudo pouco lhe pareçe
Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha,
E não porque conſelho lhe faleçe,
Cos principaes ſenhores ſe aconſelha:
Mas ſo por ver das gentes as ſentenças,
Que ſempre ouue entre muitos diferenças.
Não falta com razões quem deſconcerte,
Da opinião de todos, na vontade,
Em quem o esforço antigo ſe conuerte,
Em deſuſada & ma deſlealdade,
Podendo o temor mais, gelado, inerte
Que a propria & natural fidelidade,
Negão o Rei & a patria, & ſe conuem
Negarão (como Pedro) o Deos que tem.
Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe,
No forte dom Nuno aluerez: mas antes
Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe,
Reprouando as vontades incoſtantes:
A aquellas duuidoſas gentes diſſe,
Com palauras mais duras que elegantes,
A mão na eſpada irado, & não facundo,
Ameaçando a terra, o mar, & o mundo.
Como da gente illuſtre Portugueſa,
Ha de auer quem refuſe o patrio Marte?
Como, deſta prouincia que princeſa
Foy das gentes na guerra em toda parte,
Ha de ſair quem negue ter defeſa,
Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte
De Portugues, & por nenhum reſpeito
O proprio Reino queira ver ſogeito?
Como, não ſois vos inda os deſcendentes
Daquelles, que debaixo da bandeira,
Do grande Enriquez, feros & valentes
Venceſtes eſta gente tam guerreira?
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Poſeram em fugida, de maneira,
Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão
Preſos, afora a preſa que tiuerão?