Com quem forão contino ſopeados
Estes, de quem o eſtais agora vos,
Por Dinis & ſeu filho, ſublimados
Se não cos voſſos fortes pais & auôs?
Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados,
Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos,
Torne vos voſſas forças o Rei nouo,
Se he certo que co Rei ſe muda o pouo.
Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes
Igual ao Rei que agora aleuantaſtes,
Desbaratareis tudo o que quiſerdes,
Quanto mais a quem ja desbarataſtes:
E ſe com iſto em fim vos não mouerdes,
Do penetrante medo que tomastes,
Atay as mãos a voſſo vão receio,
Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio.
Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta,
(E dizendo isto arranca mea eſpada)
Defenderey da força dura, & infeſta
A terra nunca de outrem ſojugada,
Em virtude do Rei, da patria meſta,
Da lealdade ja por vos negada,
Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:)
Mas quantos a meu Rei forem contrarios.
Bem como entre os mançebos recolhidos,
Em Camiſio, reliquias ſos de Canas,
Ia pera ſe entregar quaſi mouidos
A fortuna das forças Affricanas:
Cornelio moço os faz, que compelidos
Da ſua eſpada jurem, que as Romanas
Armas, nam deixarão em quanto a vida
Os nam deixar, ou nellas for perdida.
Deſtarte a gente força, & e força Nuno,
Que com lhe ouuir as vltimas razões
Remouem o temor frio importuno,
Que gelados lhe tinha os corações:
Nos animais caualgão de Neptuno,
Brandindo, & volteando arremeſſoẽs,
Vão correndo & gritando a boca aberta,
Viua o famoſo Rei que nos liberta.
Das gentes populares, hũs aprouão
A guerra com que a patria ſe ſoſtinha,
Hũs as armas alimpão & renouão,
Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha:
Capaçetes eſtofam, peitos prouão,
Armaſe cada hum como conuinha.
Outros fazem vestidos de mil cores,
Com letras & tenções de ſeus amores.
Com toda esta lustroſa companhia,
Ioanne forte ſae da freſca Abrantes,
Abrantes, que tambem da fonte fria
Do Tejo logra as agoas abundantes:
Os primeiros armigeros regia,
Quem pera reger era os muy poſſantes,
Orientais exercitos, ſem conto,
Com que paſſaua Xerxes o Helesponto.
Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro
Açoute de ſoberbos Caſtelhanos,
Como ja o fero Huno o foy primeiro
Pera Eranceſes, pera Italianos,
Outro tambem famoſo caualleiro,
Que a ala dereita tem dos Luſitanos,
Apto pera mandalos, & regelos,
Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos.
E da outra ala que a eſta correſponde,
Antão vazquez de Almada he Capitão,
Que deſpois foy de Abranches nobre Conde,
Das gentes vay regendo a ſestra mão,
Logo não retagoarda não ſe eſconde,
Das quinas & caſtellos o pendão,
Com Ioanne Rey forte em toda parte,
Que eſcurecendo o preço vay de Marte.
Eſtauão pelos muros temeroſas,
E de hum alegre medo quaſi frias,
Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas
Prometendo jejũs, & romarias:
Ia chegão as eſquadras bellicoſas,
Defronte das imigas companhias,
Que com grita grandiſsima os recebem,
E todas grande duuida concebem.