Respondem as trombetas menſageiras,
Pifaros ſibilantes, & atambores,
Alferezes volteão as bandeiras,
Que variadas ſam de muitas cores:
Era no ſeco tempo, que nas eiras
Ceres o fructo deixa aos lauradores,
Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto,
Baco das vuas tira o doçe moſto.
Deu ſinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente, & temeroſo,
Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana,
A tras tornou as ondas de medroſo:
Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana,
Correo ao mar o Tejo duuidoſo:
E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão,
Aos peitos os filhinhos apertârão.
Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor,
Que ao coração acode o ſangue amigo,
Que nos perigos grandes, o temor,
He mayor muitas vezes que o perigo,
E ſe o não he, pareçeo, que o furor
De offender, ou vencer o duro immigo,
Faz não ſentir, que he perda grande & rara
Dos membros corporais da vida cara.
Começaſe a trauar a incerta guerra,
De ambas partes ſe moue a primeira ala,
Hũs leua a defenſam da propria terra,
Outros as eſperanças de ganhala:
Logo o grande Pereira em quem ſe encerra
Todo o valor, primeiro ſe aſsinala
Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea
Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea.
Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes
Farpões, ſetas, & varios tiros voão,
Debaxo dos pês duros dos ardentes
Cauallos, treme a terra, os vales ſoão:
Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes
Quedas, co as duras armas tudo atroão.
Recreçem os immigos ſobre a pouca
Gente, do fero Nuno que os apouca.
Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão,
(Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta,
Que menos he querer matar o yrmão,
Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta:
Destes arrenegados muitos ſam,
No primeiro eſquadrão, que ſe adianta,
Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho)
Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno.
O tu Sertorio, o nobre Cariolano
Catilina, & vos outros dos antigos,
Que contra voſſas patrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos:
Se lâ no reino eſcuro de Sumano
Receberdes grauiſsimos castigos
Dizeilhe que tambem dos Portugueſes
Algũs tredores ouue algũas vezes.
Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros,
Tantos dos inimigos a elles vão:
Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros
De Ceita estâ o fortiſsimo lião
Que cercado ſe ve dos caualleiros
Que os campos vão correr de Tutuão,
Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo
Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo.
Com torua vista os vê, mas a natura
Ferina, & a yra não lhe compadecem
Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura
Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem:
Tal eſtà o caualeiro que a verdura
Tinge co ſangue alheyo, ali perecem
Algũs dos ſeus, que o animo valente
Perde a virtude contra tanta gente.
Sentio Ioane a afronta que paſſaua
Nuno, que como ſabio capitão,
Tudo corria, & via, & a todos daua
Com preſença & palauras coração:
Qual parida Lioa fera & braua
Que os filhos que no ninho ſôs eſtão
Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara,
O paſtor de Maſsilia lhos furtara.