Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos
Os montes ſete Irmãos atroa & abala,
Tal Ioane com outros eſcolhidos
Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala:
O fortes companheiros, o ſubidos
Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala,
Defendey voſſas terras que a eſperança
Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.

Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro
Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes
Dos inimigos corro, & vou primeiro
Pelejay verdadeiros Portugueſes.
Iſto diſſe o magnanimo guerreyro
E ſopeſando a lança quatro vezes,
Com força tira & deſte vnico tiro
Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro,

Porque eis os ſeus aceſos nouamente
Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo
Sobre qual mais com animo valente,
Perigos vencerâ, do Marcio jogo
Porfião: tingeo ferro o fogo ardente
Rompem malhas primeiro, & peitos logo
Aſsi recebem junto & dão feridas
Como a quem ja não doe perder as vidas.

A muitos mandão ver o Eſtigio lago
Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua
O Meſtre morre ali de Sanctiago
Que fortiſsimamente pelejaua
Morre tambem, fazendo grande eſtrago
Outro Meſtre cruel de Calatraua
Os Pereiras tambem arrenegados
Morrem, arrenegando o Ceo & os fados.

Muitos tambem do vulgo vil ſem nome
Vão, & tambem dos nobres ao profundo
Onde o Trifauce Cão perpetua fome
Tem, das almas que paſſão deſte mundo
E porque mais aqui ſe amanſe & dome
A ſoberba do imigo furibundo,
A ſublime bandeira Caſtelhana
Foy derribada os pês da Luſitana.

Aqui a fera batalha ſe encruece
Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas
A multidão da gente que perece
Tem as flores da propria cor mudadas:
Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece
O furor, & ſobejão as lançadas,
Ia de Caſtella o Rey desbaratado
Se vee, & de ſeu propoſito mudado.

O campo vay deixando ao vencedor
Contente de lhe não deixar a vida
Seguẽ no os que ficarão, & o temor
Lhe da não pês, mas aſas aa fugida:
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda deſpendida,
Da magoa, da deſonra, & triste nojo
De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo.

Algũs vão maldizendo & blasfemando
Do primeyro que guerra fez no mundo
Outros a ſede dura vão culpando
Do peito cobiçoſo & ſitibundo:
Que por tomar o alheo, o miſerando
Pouo auentura aas penas do profundo
Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas
Sem filhos, ſem maridos deſditoſas.

O vencedor Ioanne eſteue os dias
Coſtumados no campo, em grande gloria
Com offertas deſpois, & romarias
As graças deu a quem lhe deu victoria:
Mas Nuno que não quer por outras vias,
Entre as gentes deixar de ſi memoria
Se não por armas ſempre ſoberanas
Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas.

Ajudao ſeu destino de maneira
Que fez igoal o effeito ao penſamento,
Porque a terra dos Vandalos fronteira
Lhe concede o deſpojo & o vencimento
Ia de Siuilha a Betica bandeira
E de varios ſenhores nũ momento
Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa
Obrigados da força Portugueſa.