Deſtas & outras victorias longamente
Erão os Caſtelhanos opprimidos
Quando a paz deſejada ja da gente
Derão os vencedores aos vencidos:
Deſpois que quis o Padre omnipotente
Dar os Reis inimigos por maridos
Aas duas lllustriſsimas Ingleſas
Gentis, fermoſas, inclitas princeſas.
Não ſofre o peito forte vſado aa guerra
Não ter imigo ja a quem faça dano,
E aſsi não tendo a quem vencer na terra
Vay cometer as ondas do Occeano:
Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra
Da patria, por fazer que o Afrinano,
Conheça pollas armas, quanto excede
A ley de Christo aa ley de Mafamede.
Eis mil nadantes aues pello argento
Da furioſa Tetis inquieta,
Abrindo as pandas aſas vão ao vento
Pera onde Alcides pos a extrema meta:
O monte Abila, & o nobre fundamento
De Ceita toma, & o torpe Mahometa
Deita fora, & ſegura toda Eſpanha
Da Iuliana, mã, & desleal manha.
Não conſentio a morte tantos annos
Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe
Portugal, mas os coros ſoberanos
Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe:
Mas pera defenſam dos Luſitanos
Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe,
E aumentaſſe a terra mais que dantes
Inclita gêração, altos Infantes.
Não foy do Rey Duarte tão ditoſo
O tempo que ficou na ſumma alteza,
Que aſsi vay alternando o tempo iroſo
O bem co mal, o goſto co a tristeza:
Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo?
Ou quem vio em fortuna auer firmeza?
Pois inda neſte Reino, & neſte Rey
Não vſou ella tanto deſta ley.
Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando
Que a tão altas empreſas aſpiraua
Que por ſaluar o pouo miſerando
Cercado, ao Sarraceno ſentregaua:
Sô por amor da patria eſtâ paſſando
A vida de ſenhora feyta eſcraua,
Por não ſe dar por elle ha forte Ceita
Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita.
Cadro porque o inimigo não venceſſe,
Deixou antes vencer da morte a vida,
Regulo porque a patria não perdeſſe,
Quis mais a liberdade ver perdida:
Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe
A captiueiro eterno ſe conuida:
Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto
Nemos Decios leais fizerão tanto.
Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro,
Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia,
Que a ſoberba do barbaro fronteiro,
Tornou em baxa & humilima miſeria,
Fora por certo inuicto caualleiro,
Se não quiſera yr ver a terra Iberia:
Mas Affrica dira ſer impoſsibil,
Poder ninguem vencer o Rei terribil.
Eſte pode colher as maçãs de ouro,
Que ſamente o Terintio colher pode,
Do jugo que lhe pos o brauo Mouro,
A ceruiz inda agora nam ſacode:
Na fronte a palma leua, & o verde louro,
Das victorias do barbaro, que acode
A defender Alcaçer forte villa,
Tangere populoſo, & a dura Arzilla.
Porem ellas em fim por força entradas,
Os muros abaxarão de Diamante,
Aas Portugueſas forças coſtumadas,
A derribarem quanto achão diante,
Marauilhas em armas eſtremadas,
E de eſcriptura dinas elegante,
Fizerão caualleiros nesta empreſa
Mais, affinando a fama Portugueſa.