As molheres queimadas vem encima
Dos vagaroſos bois, ali ſentadas
Animais que elles tem em mais eſtima
Que todo o outro gado das manadas:
Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima,
Na ſua lingua cantão concertadas,
Co doce ſom das rusticas auenas
Imitando de Titiro as Camenas.
Eſtes como na viſta prazenteiros
Foſſem, humanamente nos tratarão,
Trazendonos galinhas & carneiros
A troco doutras peças que leuarão:
Mas como nunca em fim meus companheiros
Palaura ſua algũa lhe alcançarão
Que deſſe algun ſinal do que buſcamos:
As vellas dando, as ancoras leuamos.
Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo
Aa coſta negra de Africa, & tornaua
A proa a demandar o ardente meyo
Do Ceo, & o polo Antartico ficaua:
Aquelle ilheo deixamos, onde veyo
Outra armada primeira, que buſcaua
O tormentorio Cabo, & deſcuberto,
Naquelle ilheo fez ſeu limite certo.
Daqui fomos cortando muitos dias
Entre tormentas tristes & bonanças,
No largo mar fazendo nouas vias
So conduzidos de arduas eſperanças:
Co mar hum tempo andamos em porfias
Que como tudo nelle ſam mudanças,
Corrente nelle achamos tão poſſante
Que paſſar não deixaua por diante.
Era mayor a força em demaſia
Segundo pera tras nos obrigaua,
Do mar, que cantro nos ali corria
Que por nos a do vento que aſſopraua:
Injuriado Noto da porfia
Em que co mar (parece) tanto eſtaua
Os aſſopros esforça iradamente
Com que nos fez vencer a grão corrente.
Trazia o Sol o dia celebrado
Em que tres Reis das partes do Oriente,
Forão buſcar hum Rey de pouco nado
No qual Rey outros tres ha juntamente:
Neſte dia outro porto foy tomado
Por nos, da meſma ja contada gente,
Num largo rio, ao qual o nome demos
Do dia em que por elle nos metemos.
Deſta gente refreſco algum tomamos,
E do rio freſca agoa, mas com tudo
Nenhum ſinal aqui da India achamos
No pouo com nos outros caſi mudo:
Ora vê Rey quamanha terra andamos
Sem ſair nunca deſte pouo rudo,
Sem vermos nunca noua, nem ſinal,
Da deſejada parte Oriental.
Ora imagina agora quam coitados
Andariamos todos, quam pardidos,
De fomes, de tormentas quebrantados
Por climas & por mares não ſabidos:
E do eſperar comprido tão canſados
Quanto a deſeſperar ja compellidos,
Por ceos não naturais, de qualidade
Inimiga de noſſa humanidade.
Corrupto ja & danado o mantimento
Danoſo & mão ao fraco corpo humano,
E alem diſſo nenhum contentamento
Que ſequer da eſperança foſſe engano:
Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento
De ſoldados, não fora Luſitano,
Que durara elle tanto obediente
Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente?
Cres tu que ja não forão leuantados
Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira,
Fazendo ſe Piratas, obrigados
De deſeſperação, de fome, de ira?
Grandemente, porcerto eſtão prouados
Pois que nenhum trabalho grande os tira
Daquella Portugueſa alta eccellencia
De lealdade firme, & obediencia.