Deixando o porto em fim do doce rio
E tornando a cortar a agoa ſalgada,
Fizemos deſta costa algum deſuio
Deitando pera o pego toda a armada:
Porque ventando Noto manſo & frio
Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada,
Que a coſta faz ali daquella banda
Donde a rica Sofala o ouro manda.

Eſta paſſada, logo o leue leme
Encomendado ao ſacro Nicolao,
Pera onde o mar na coſta brada & geme
A proa inclina dhũa & doutra nao.
Quando indo o coração que eſpera & teme
E que tanto fiou dhum fraco pao,
Do que eſparaua ja deſeſperado
Foy dhũa nouidade aluoroçado.

E foy, que eſtando ja da costa perto
Onde as prayas & valles bem ſe vião,
Num rio, que ali ſae ao mar aberto
Bateis aa vela entrauão & ſayão:
Alegria muy grande foy porcerto
Acharmos ja peſſoas que ſabião
Neuegar, porque entrellas eſperamos
De achar nouas algũas, como achamos.

Ethiopes ſam todos, mas parece
Que com gente milhor comunicauão,
Palaura algũa Arabia ſe conhece
Entre a lingoagem ſua que falauão.
E com pano delgado que ſe tece
De algodão, as cabeças apertauãa,
Com otro que de tinta azul ſe tinge
Cadahum as vergonhoſas partes cinge.

Pella Arabica lingoa que mal falão,
E que Fernão martinz muy bem entende
Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão
As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende.
Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão
Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende
E do Sul pera o Sol, terra onde auia
Gente aſsi como nos da cor do dia.

Muy grandemente aqui nos alegramos
Coa gente, & com as nouas muito mais.
Pellos ſinais que neſte rio achamos
O nome lhe ficou dos bons ſinais:
Hum padrão neſta terra aleuantamos
Que pera aſinalar lugares tais
Trazia alguns, o nome tem do bello
Guiador de Tobias a Gabello.

Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos,
Nojoſa criação das agoas fundas,
Alimpamos as naos, que dos caminos
Longos do mar, vem ſordidas & immundas:
Dos oſpedes que tinhamos vizinhos
Com moſtras apraziueis & jocundas,
Ouuemos ſempre o vſado mantimento
Limpas de todo o falſo penſamento.

Mas não foy, da eſperança grande & immenſa
Que neſta terra ouuemos, limpa & pura
A alegria: mas logo a recompenſa
A Ramnuſia com noua deſuentura:
Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa,
Coesta condição peſada & dura
Nacemos, o peſar terâ firmeza,
Mas o bem logo muda a natureza.

E foy que de doença crua & feya
A mais que eu nunca vi, deſempararão
Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia
Os oſſos pera ſempre ſepultarão:
Quem auerâ que ſem o ver o creya
Que tão disformemente ali lhe incharão,
As gingiuas na boca, que crecia
A carne, & juntamente apodrecia.

Apodrecia cum fetido & bruto
Cheiro, que o âr vizinho inficionaua,
Não tinhamos ali medico aſtuto,
Sururgião ſutil menos ſe achaua:
Mas qualquer neste officio pouco inſtructo
Pella carne ja podre aſsi cortaua,
Como ſe fora morta, & bem conuinha
Pois que morto ficaua quem a tinha.