Em fim que neſta incognita eſpeſſura
Deixamos pera ſempre os companheiros,
Que em tal caminho & em tanta deſuentura
Forão ſempre com noſco auentureiros:
Quam facil he ao corpo a ſepultura
Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros,
Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos,
Receberão de todo o illuſtre os oſſos.
Aſsi que deſte porto nos partimos
Com mayor eſperança & mòr triſteza,
E pella coſta abaixo o mar abrimos
Buſcando algum ſinal de mais firmeza:
Na dura Moçambique em fim ſurgimos,
De cuja falſidade & mâ vileza
Ia ſeras ſabedor, & dos enganos
Dos pouos de Mombaça pouco humanos.
Ate que aqui no teu ſeguro porto,
Cuja brandura & doce tratamento,
Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto,
Nos trouxe a piedade do alto aſſento:
Aqui repouſou, aqui doce conforto,
Noua aquietação do penſamento
Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte,
Te contey tudo quanto me pediste.
Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo
Gentes que tais caminhos cometeſſem?
Crês tu que tanto Eneas & o facundo
Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem?
Ouſou algum a ver do mar profundo
Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem,
Do que eu vi, a poder desforço & de arte,
E do que inda ei de ver, a oitaua parte?
Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia
Sobre quem tem contenda peregrina,
Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia,
Atenas, Yos, Argo, & Salamina:
E ſoutro que eſclarece toda Auſonia,
A cuja voz altiſona & diuina
Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece,
Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece.
Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos
Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção,
Fingindo Magas Circes, Polifemos,
Syrenas que co canto os adormeção:
Dem lhe mais nauegar â vella & remos
Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem
Os companheiros em goſtando o Loto,
Dem lhe perder nas agoas o Piloto.
Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem
Dos odres, & Calipſos namoradas,
Harpias, que o manjar lhe contaminem
Decer aas ſombras nuas ja paſſadas:
Que por muito & por muito que ſe afinem
Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas,
A verdade que eu conto nua & pura
Vence toda grandiloca eſcriptura.
Da boca do facundo capitão
Pendendo eſtauão todos embibidos,
Quando deu fim aa longa narração
Dos altos feitos grandes & ſubidos:
Louua o Rey o ſublime coração
Dos Reis em tantas guerras conhecidos,
Da gente louua a antiga fortaleza,
A lealdade danimo & nobreza.
Vay recontando o pouo que ſe admira
O caſo cada qual que mais notou,
Nenhum delles da gente os olhos tira
Que tão longos caminhos rodeou:
Mas ja o mancebo Delio as redeas vira
Que o irmão de Lampecia mal guiou,
Por vir a deſcanſar nos Thetios braços
E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços.
Quam doce he o louuor & a juſta gloria
Dos proprios feitos, quando ſam ſoados,
Qualquer nobre trabalha que em memoria
Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados:
As enuejas da illustre & alhea hiſtoria
Fazem mil vezes feitos ſublimados,
Quem valeroſas obras exercita
Louuor alheo muito o eſperta & incita.