Tam brandamente os ventos os leuauão,
Como quem o ceo tinha por amigo:
Sereno o ar, & os tempos ſe mostrauão
Sem nuuẽs, ſem receio de perigo:
O promontorio praſſo ja paſſauão
Na coſta de Ethiopia, nome antiguo.
Quando o mar deſcobrindo lhe moſtraua,
Nouas ilhas que em torno cerca, & laua.

Vaſco da gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empreſas ſe offerece,
De ſoberbo, & de altiuo coração,
A quem fortuna ſempre fauorece
Pera ſe aqui deter, não ve razão,
Que inhabitada a terra lhe parece:
Por diante paſſar determinaua:
Mas nam lhe ſoccedeo como cuydaua.

Eis aparecem logo em companhia,
Hũs pequenos bateis, que vem daquella
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vella:
A gente ſe aluoroça, & de alegria
Não ſabe mais que olhar a cauſa della.
Que gente ſera eſta, em ſi dezião,
Que costumes, que ley, que Rei terião?

As embarcações erão, na maneira
Muy veloces, eſtreitas, & compridas,
As vellas com que vem erão de eſteira,
Dũas folhas de Palma bem tecidas:
A gente da cor era verdadeira,
Que Phaeton, nas terras acendidas
Ao mundo deu, de ouſado, & não prudente,
O Pado o ſabe, & Lampetuſa o ſente.

De panos de algodão vinhão veſtidos,
De varias cores, brancos, & liſtrados,
Hũs trazem derredor de ſi cingidos,
Outros em modo ayroſo ſobraçados,
Das cintas pera cima vem deſpidos:
Por armas tem adagas, & tarçados.
Com toucas na cabeça, & nauegando,
Anafis ſonoroſos vão tocando.

Cos panos, & cos braços açenauão,
Aas gentes Luſitanas, que eſperaſſem:
Mas ja as proas ligeiras, ſe inclinauão,
Pera que junto aas Ilhas amainaſſem.
A gente, & marinheiros trabalhauão,
Como ſe aqui os trabalhos ſacabaſſem:
Tomão vellas, amainaſe a verga alta,
Da ancora o mar ferido, encima ſalta.

Não erão ancorados, quando a gente
Eſtranha, polas cordas ja ſubia,
No geſto ledos vem, & humanamente,
O Capitão ſublime os recebia.
As meſas manda por em continente,
Do licor que Lieo prantado auia:
Enchem vaſos de vidro, & do que deitão,
Os de Phaeton queimados nada engeitão.

Comendo alegremente perguntauão,
Pela Arabica lingoa, donde vinhão,
Quem erão, de que terra, que buſcauão,
Ou que partes do mar corrido tinhão?
Os fortes Luſitanos lhe tornauão,
As diſcretas repostas que conuinhão.
Os Portugueſes ſomos do Occidente,
Himos buſcando as terras do Oriente.

Do mar temos corrido, & nauegado
Toda a parte do Antartico, & Caliſto,
Toda a coſta Affricana rodeado,
Diuerſos Ceos, & Terras temos viſto:
Dum Rei potente ſomos, tam amado,
Tam querido de todos, & bem quisto:
Que nam no largo Mar, com leda fronte:
Mas no lago entraremos de Acheronte.

E por mandado ſeu, buſcando andamos
A terra Oriental, que o Indo rega,
Por elle o Mar remoto nauegamos,
Que ſo dos feos Focas ſe nauega:
Mas ja razão parece que ſaibamos,
Se entre vos a verdade não ſe nega.
Quem ſois, que terra he eſta que abitais?
Ou ſe tendes da India algũs ſinais?