Somos, hum dos das Ilhas lhe tornou,
Eſtrangeiros na terra, Lei, & nação
Que os proprios, ſam aquelles que criou
A Natura ſem Lei, & ſem Razão:
Nos temos a Lei certa que inſinou,
O claro deſcendente de Abrahão:
Que agora tem do Mundo o ſenhorio,
A mãy Hebrea teue, & o pai Gentio.

Esta Ilha pequena que habitamos,
He em toda eſta terra certa eſcala,
De todos os que as Ondas nauegamos,
De Quiloa, de Mombaça, & de Sofala:
E por ſer neceſſaria, procuramos,
Como proprios da terra, de habitala.
E porque tudo em fim vos notifique,
Chamaſe a pequena Ilha Moçambique.

E ja que de tam longe nauegais,
Buſcando o Indo Idaſpe, & terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem ſejais
Guiados pelas ondas ſabiamente.
Tambem ſera bemfeito que tenhais,
Da terra algum refreſco, & que o Regente
Que esta terra gouerna, que vos veja,
E do mais neceſſario vos proueja.

Iſto dizendo, o Mouro ſe tornou
A ſeus bateis com toda a companhia,
Do Capitão & gente ſe apartou,
Com mostras de deuida corteſia:
Niſto Febo nas agoas encerrou,
Co carro de Christal, o claro dia:
Dando cargo aa Irmaã, que alumiaſſe,
O largo Mundo, em quanto repouſaſſe.

A noyte ſe paſſou na laſſa frota,
Com eſtranha alegria, & não cuydada,
Por acharem da terra tão remota,
Noua de tanto tempo deſejada:
Qualquer então conſigo cuyda, & nota
Na gente, & na maneira deſuſada.
E como os que na errada Seita crérão,
Tanto por todo o mundo ſe eſtendérão.

Da Lũa os claros rayos rutilauão,
Polas argenteas ondas Neptuninas,
As Estrellas os Ceos acompanhauão.
Qual campo reueſtido de boninas,
Os furioſos ventos repouſauão,
Polas couas eſcuras peregrinas.
Porem da armada a gente vigiaua,
Como por longo tempo coſtumaua.

Mas aſſy como a Aurora marchetada,
Os fermoſos cabellos eſpalhou,
No Ceo ſereno, abrindo a roxa entrada,
Ao claro Hiperionio que acordou,
Começa a embandeirarſe toda a armada,
E de todos alegres ſe adornou:
Por receber com festas, & alegria,
O Regedor das Ilhas que partia.

Partia alegremente nauegando,
A ver as naos ligeiras Luſitanas,
Com refreſco da terra, em ſi cuidando,
Que ſam aquellas gentes inhumanas:
Que os apouſentos Caſpios habitando,
A conquiſtar as terras Aſianas
Vierão: & por ordem do deſtino,
O Imperio tomarão a Coſtantino.

Recebe o Capitão alegremente,
O Mouro, & toda ſua companhia,
Dalhe de ricas peças hum preſente,
Que ſo pera eſte effeito ja trazia:
Dalhe conſerua doçe, & dalhe o ardente
Não vſado licor que dâ alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe,
E muito mais contente come, & bebe.

Eſtà a gente maritima de Luſo,
Subida pela exarcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo, & vſo,
E a lingoagem tam barbara & enleada.
Tambem o Mouro astuto eſtà confuſo,
Olhando a cor, o trajo, & a forte armada.
E perguntando tudo lhe dezia,
Se porventura vinhão de Turquia.