Não erão os traquetes bem tomados,
Quando dà a grande & ſubita procella,
Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados
Amaina, diſſe, amaina a grande vella,
Não eſperão os ventos indinados
Que amainaſſem, mas juntos dando nella,
Em pedaços a fazem, cum ruido
Que o mundo pareceo ſer deſtruydo.

O ceo fere com gritos niſto a gente,
Cum ſubito temor, & deſacordo,
Que no romper da vela a Nao pendente
Toma gram ſuma dagoa pello bordo,
Alija, diſſe o meſtre, rijamente,
Alija tudo ao mar, não falte acordo,
Vão outros dar a bomba não ceſſando,
Aa bomba que nos imos alagando.

Correm logo os ſoldados animoſos
A dar aa bomba, & tanto que chegarão,
Os balanços, que os mares temeroſos
Derão aa Nao, num bordo os derribarão:
Tres marinheiros duros, & forçoſos,
A menear o leme não baſtarão,
Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte
Se aproueitar dos homens força & arte.

Os ventos erão tais, que não poderão
Moſtrar mais força dimpeto cruel,
Se pera derribar então vierão
A fortiſsima torre de Babel:
Nos altiſsimos mares, que crecerão,
A pequena grandura dhum batel,
Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto
Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto.

A nao grande, em que vay Paulo da Gama,
Quebrada leua o maſto pello meyo,
Quaſi toda alagada: a gente chama
Aquelle que a ſaluar o mundo veyo:
Não menos gritos vãos ao ar derrama
Toda a Nao de Coelho, com receyo,
Com quanto teue o meſtre tanto tento
Que primeiro amainou que deſſe o vento:

Agora ſobre as nuuens os ſubião
As ondas de Neptuno furibundo,
Agora a ver parece que decião
As intimas entranhas do profundo.
Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião
Arruinar a machina do mundo,
A noite negra & feya ſe alumia,
Cos rayos, em que o Polo todo ardia.

As Alcioneas aues triste canto
Iunto da costa braua leuantarão,
Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto,
Que as furioſas agoas lhe cauſarão:
Os Delfins namorados entre tanto
La nas couas maritimas entrarão,
Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros
Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros

Nunca tam viuos rayos fabricou
Contra a fera ſoberba dos Gigantes,
O gram ferreiro ſordido, que obrou
Do enteado as armas radiantes:
Nem tanto o gram Tonante arremeſſou
Relampados ao mundo fulminantes,
No gram diluuio, donde ſos viuerão
Os dous que em gente as pedras conuerterão.

Quantos montes então, que derribarão
As ondas que batião denodadas,
Quantas aruores velhas arrancarão
Do vento brauo as furias indinadas:
As forçoſas raizes não cuidarão
Que nunca pera o ceo foſſem viradas,
Nem as fundas arêas que podeſſem
Tanto os mares que encima as reuolueſſem.

Vendo Vaſco da Gama que tam perto
Do fim de ſeu deſejo ſe perdia,
Vendo ora o mar ate o inferno aberto,
Ora com noua furia ao ceo ſubia,
Confuſo de temor, da vida incerto,
Onde nenhum remedio lhe valia,
Chama aquelle remedio ſancto & forte
Que o impoſsibil pode, desta ſorte.