Diuina guarda, angelica, celeſte,
Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds,
Tu que a todo iſrael refugio deſte
Por metade das agoas Eritreas:
Tu que liuraſte Paulo & defendeſte
Das Syrtes arenoſas & ondas feas,
E guardaste cos filhos o ſegundo
Pouoador do alagado & vacuo mundo.

Se tenho nouos medos perigoſos
Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados,
Outras Syrtes, & baxos arenoſos,
Outros Acroceraunios infamados,
No fim de tantos caſos trabalhoſos,
Por que ſomos de ti deſemparados,
Se eſte noſſo trabalho não te offende,
Mas antes teu ſeruiço ſo pretende?

O ditoſos aquelles que puderão
Entre as agudas lanças Affricanas
Morrer, em quanto fortes ſostiuerão
A ſancta Fe, nas terras Mauritanas:
De quem feitos illuſtres ſe ſouberão,
De quem ſicão memorias ſoberanas,
De quem ſe ganha a vida com perdella,
Doce fazendo a morte as honras della.

Aſsi dizendo os ventos que lutauão,
Como touros indomitos bramando,
Mais & mais a tormenta acrecentauão,
Pella miuda enxarcia aſſuuiando.
Relampados medonhos não ceſſauão,
Feros trouoẽs que vem repreſentando
Cair o ceo dos exos ſobre a terra,
Cenſigo os elementos terem guerra.

Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua
Diante do Sol claro, no Orizonte
Menſageira do dia, & viſitaua
A terra, & o largo mar, com leda fronte:
A deoſa que nos ceos a gouernaua,
De quem foge o enſiſero Orionte,
Tanto que o mar, & a chara armada vira,
Tocada junto foy de medo, & de ira.

Estas obras de Baco ſam por certo,
Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue
Tão danada tenção, que deſcuberto
Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue,
Iſto dizendo, dece ao mar aberto,
No caminho gaſtando eſpaço breue,
Em quanto manda as nimphas amoroſas
Grinaldas nas cabeças por de roſas.

Grinaldas manda por de varias cores
Sobre cabellos louros a porfia,
Quem não dirâ, que nacem roxas flores
Sobre ouro natural, que amor infia:
Abrandar determina por amores
Dos ventos a nojoſa companhia,
Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas,
Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas.

Aſsi foy, porque tanto que chegarão
A viſta dellas, logo lhe falecem
As forças com que dantes pellejarão,
E ja como rendidos lhe obedecem.
Os pês & mãos, parece, que lhe atarão
Os cabellos que os rayos eſcurecem,
A Boreas, que do peito mais queria,
Aſsi diſſe a belliſsima Oritia.

Não creas, fero Boreas, que te creyo
Que me tiueſte nunca amor constante,
Que brandura he de amor mais certo arreyo,
E não conuem furor a firme amante:
Se ja não poẽs a tanta inſania freyo,
Não eſperes de mi daqui em diante,
Que poſſa mais amarte, mas temerte,
Que amor contigo, em medo ſe conuerte.

Aſsi meſmo a fermoſa Galatea
Dizia ao fero Noto, que bem ſabe
Que dias ha que em vella ſe recrea,
E bem crê que com elle tudo acabe,
Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea,
Que o coração no peito lhe não cabe,
De contente de ver que a dama o manda,
Pouco cuida que faz ſe logo abranda.