Eſte he o primeiro Afonſo, diſſe o Gama,
Que todo Portugal aos Mouros toma,
Por quem no Estigio lago jura a fama,
De mais não celebrar nenhum de Roma:
Eſte he aquelle zeloſo a quem Deos ama,
Com cujo braço o Mouro imigo doma,
Pera quem de ſeu Reino abaxa os muros,
Nada deixando ja pera os futuros.

Se Ceſar, ſe Alexandre Rei tiuerão,
Tam pequeno poder, tam pouca gente,
Contra tantos inimigos quantos erão,
Os que desbarataua eſte excelente,
Nam creas que ſeus nomes ſe eſtenderão
Com glorias imortais tam largamente:
Mas deixa os feitos ſeus inexplicaueis,
Ve que os de ſeus vaſſalos ſam notaueis.

Eſte que ves olhar com geſto yrado,
Pera o rompido Alumno mal ſofrido,
Dizendo lhe que o exercito eſpalhado,
Recolha, & torne ao campo defendido:
Torna o moço do velho acompanhado,
Que vencedor o torna de vencido,
Egas moniz ſe chama o forte velho
Pera leais vaſſalos claro eſpelho.

Vello ca vai cos filhos a entregarſe,
Acorda ao colo, nu de ſeda & pano,
Porque nam quis o moço ſogeitarſe,
Como elle prometera ao Castelhano:
Fez com ſiſo & promeſſas leuantarſe
O cerco que ja eſtaua ſoberano,
Os filhos & molher obriga aa pena,
Pera que o ſenhor ſalue, a ſi condena.

Nem fez o Conſul tanto que cercado
Foi nas forcas Caudinas de ignorante
Quando a paſſar por baxo foi forçado
Do Samnitico jugo triumphante:
Este pelo ſeu pouo injuriado,
Aſsi ſe entrega ſo firme & conſtante,
Eſtoutro aſsi, & os filhos naturais,
E a conſorte ſem culpa, que doe mais

Ves eſte que ſaindo da cilada,
Dâ ſobre o Rei que cerca a villa forte,
Ia o Rei tem preſo, & a villa deſcercada
Illustre feito digno de Mauorte,
Velo ca vay pintado neſta armada
No mar tambem aos Mouros dando a morte,
Tomando lhe as galès, leuando a gloria,
Da primeira maritima victoria.

E dom Fuas Roupinho que na terra,
E no mar reſplandece juntamente,
Co fogo que acendeo junto da ſerra
De Abila, nas gales da Maura gente
Olha como então juſta & ſancta guerra
De acabar pelejando està contente:
Dar mãos dos Mouros entra a felice alma
Triunfando nos ceos com juſta Palma.

Nam ves hum ajuntamento de estrangeiro
Trajo, ſair da grande armada noua,
Que ajuda a combater o Rei primeiro
Lisboa, de ſi dando ſancta proua:
Olha Enrique famoſo caualleiro,
A Palma que lhe naſce junto aa coua,
Por elles moſtra Deos milagre visto,
Germanos ſam os Martyris de Christo.

Hum Sacerdote vê brandindo a eſpada,
Contra Arronches que toma, por vingança
De Leiria, que de antes foi tomada,
Por quem porMaphamede enreſta a lança:
He Teotonio Prior: mas vê cercada
Sanctarem, & veras a ſegurança
Da figura nos muros, que primeira
Subindo ergueo das Quinas a bandeira:

Vello ca donde Sancho desbarata
Os Mouros de Vandalia em fera guerra,
Os imigos rompendo, o Alferez mata,
E Hispalico pendão derriba em terra,
Mem Moniz he, que em ſi o valor retrata,
Que o ſepulchro do pay cos oſſos cerra,
Digno deſtas bandeiras, pois ſem falta
A contraria derriba, & a ſua exalta.