Olha aquelle que deçe pela lança,
Com as duas cabeças dos vigias,
Onde a çilada eſconde, com que alcança
A cidade por manhas & ouſadias:
Ella por armas toma a ſemelhança
Do caualleiro, que as cabeças frias
Na mão leuaua, feito nunca feito,
Giraldo ſem pauor he o forte peito.
Nem vês hum Caſtelhano, que agrauado,
De Affonſo nono Rei, pelo odio antigo
Dos de Lara cos Mouros he deitado,
De Portugal fazendoſe inimigo?
Abrantes villa toma acompanhado
Dos duros infieis que traz conſigo:
Mas vê que hum Portugues com pouca gente
O desbarata & o prende ouſadamente.
Martim Lopez ſe chama o caualleiro,
Que destes leuar pode a palma, & o louro:
Mas olha hum Eccleſiastico guerreiro,
Que em lança de aço torna o Bago de ouro:
Vêllo entre os duuidoſos tam inteiro,
Em não negar batalha ao brauo Mouro,
Olha o ſinal no çeo que lhe apareçe,
Com que nos poucos ſeus o esforço creçe.
Vês vão os Reis de Cordoua & Seuilha,
Rotos, cos outros dous, & não de eſpaço,
Rotos? mas antes mortos, marauilha
Feita de Deos, que não de humano braço:
Vês ja a villa de Alcaçare ſe humilha,
Sem lhe valer defeſa, ou muro de aço,
A dom Matheus o Biſpo de Lisboa,
Que a coroa de palma ali coroa.
Olha hum Meſtre que deçe de Caſtella,
Portugues de nação, como conquiſta
A terra dos Algarues, & ja nella
Nem acha que por armas lhe reſiſta,
Com manha, esforço, & com benigna estrella
Villas, castellos toma a eſcalla vista:
Ves Tauila tomada aos moradores,
Em vingança dos ſete caçadores.
Vês com belica aſtucia ao Mouro ganha
Silues, que elle ganhou com força ingente,
He dom Paio Correa, cuja manha
E grande esforço faz enueja aa gente:
Mas não paſſes os tres q̃ ẽ Frãça & Eſpanha
Se fazem conhecer perpetuamente,
Em deſafios, juſtas & torneos,
Nellas deixando publicos trofeos.
Vellos co nome vem de auentureiros,
A Castella, onde o preço ſos leuârão
Dos jogos de Belona verdadeiros,
Que com dano de algũs ſe exercitârão,
Vê mortos os ſoberbos caualleiros,
Que o principal dos tres deſafiarão,
Que Gonçalo Ribeiro ſe nomea,
Que pode não temer a ley Letea.
Atenta num que a fama tanto eſtende,
Que de nenhum paſſado ſe contenta,
Que a patria que de hum fraco fio pende
Sobre ſeus duros hombros a ſuſtenta,
Não no ves tinto de yra, que reprende
A vil deſconfiança inerte & lenta
Do pouo, & faz que tome o doçe freyo,
De Rei ſeu natural, & nam de alheyo.
Olha por ſeu conſelho & ouſadia,
De Deos guiada ſo, & de ſancta Eſtrella
So pode o que impoſsibil parecia,
Vencer o pouo ingente de Castella:
Ves par induſtria, esforço, & valentia
Outro eſtrago & victoria clara & bella
Na gente, aſsi feroz como infinita,
Que entre o Tarteſo, & Goadiana habita.
Mas não ves quaſi ja desbaratado,
O poder Luſitano, pela auſencia
Do Capitão deuoto, que apartado
Orando inuoca a ſuma & trina eſſencia:
Vello com preſſa ja dos ſeus achado,
Que lhe dizem que falta reſiſtencia
Contra poder tamanho, & que vieſſe,
Porque conſigo esforço aos fracos deſſe.