Era este Catual, hum dos que estauão
Corrutos pela Maumetana gente,
O principal por quem ſe gouernauão
As cidades do Samorim potente:
Delle ſomente os Mouros eſperauão
Efeyto a ſeus enganos torpemente,
Elle, que no concerto vil conſpira
De ſuas eſperanças nam delira.

O Gama com inſtancia lhe requere
Que o mande por nas naos, & não lhe val,
E que aſsi lho mandàra, lhe refere,
O nobre ſucceſſor de Perimal:
Porque razão lhe empede & lhe difere
A fazenda trazer de Portugal,
Pois aquillo que os Reis ja tem mandado
Nam pode ſer por outrem derrogado?

Pouco obedece o Catual corruto
A tais palauras, antes reuoluendo
Na fantaſia algum ſutil, & aſtuto
Engano diabolico, & eſtupendo,
Ou como banhar poſſa o ferro bruto
No ſangue auorrecido, eſtaua vendo,
Ou como as naos em fogo lhe abraſaſſe,
Porque nenhũa aa patria mais tornaſſe.

Que nenhum torne aa patria ſo pretende
O conſelho infernal dos Maumetanos,
Porque nam ſaiba nunca onde ſe eſtende
Aterra Eoa o Rei dos Luſitanos:
Não parte o Gama em fim, que lho defende
O Regedor dos barbaros profanos,
Nem ſem licença ſua yrſe podia,
Que as almâdias todas lhe tolhia.

Aos brados & razões do Capitão,
Responde o Idolatra, que mandaſſe
Chegar aa terra as naos, que longe eſtão,
Porque milhor dali foſſe, & tornaſſe:
Sinal he de inimigo, & de ladrão,
Que la tam longe a frota ſe alargaſſe,
Lhe diz, porque do certo & fido amigo
He nam temer do ſeu nenhum perigo.

Nestas palauras o diſcreto Gama
Enxerga bem, que as naos deſeja perto
O Catual, porque com ferro, & flama
Lhas aſſalte, por odio deſcuberto:
Em varios penſamentos ſe derrama:
Fantaſiando eſtâ remedio certo,
Que deſſe a quanto mal ſe lhe ordenaua
Tudo temia, tudo em fim cuidaua.

Qual o reflexo lume do polido
Eſpelho de aço, ou de cristal fermoſo,
Que do rayo ſolar ſendo ferido,
Vai ferir noutra parte luminoſo,
E ſendo da oucioſa mão mouido
Pela caſa do moço curioſo,
Anda pelas paredes, & telhado,
Tremulo, aqui & ali, & deſſoſſegado.

Tal o vago juyzo fluctuaua
Do Gama preſo, quando lhe lembrara
Coelho, ſe por caſo o eſparaua
Na praia cos bateis, como ordenara:
Logo ſecretamente lhe mandaua,
Que ſe tornaſſe aa frota, que deixâra,
Nam foſſe ſalteado dos enganos,
Que eſperaua, dos feros Maumetanos.

Tal ha de ſer, quem quer co dom de Marte
Imitar os illuſtres, & igoalalos.
Voar co penſamento a toda parte,
Adiuinhar pirigos, & euitallos:
Com militar engenho, & ſutil arte
Entender os imigos, & enganalos,
Crer tudo em fim, que nunca louuarey
O Capitão que diga, não cuidey.

Inſiste o Malabar em telo preſo,
Senão manda chegar a terra a armada,
Elle conſtante, & de yra nobre aceſo,
Os ameaços ſeus nam teme nada:
Que antes quer ſobre ſi tomar o peſo,
De quanto mal a vil malicia ouſada
Lhe andar armando, que por em ventura
A frota de ſeu Rei, que tem ſegura.