Aquella noite eſteue ali detido,
E parte do outro dia, quando ordena
De ſe tornar ao Rei. mas impedido
Foi da guarda que tinha não pequena:
Comete lhe o Gentio outro partido,
Temendo de ſeu Rei castigo, ou pena,
Se ſabe esta malicia, a qual aſinha
Saberâ, ſe mais tempo ali o detinha.

Diz lhe que mande vir toda á fazenda
Vendibil, que trazia, pera a terra,
Pera que de vagar ſe troque, & venda,
Que quem nam quer comercio, buſca guerra:
Posto que os maos prepoſitos entenda
O Gama, que o danado peito encerra,
Conſente, porque ſabe por verdade,
Que compra co a fazenda a liberdade.

Concertã ſe que o negro mande dar,
Embarcações idoneas com que venha,
Que os ſeus bateis não quer auenturar,
Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha:
Partem as almàdias a buſcar
Mercadoria Hispana, que conuenha,
Eſcreue a ſeu yrmão, que lhe mandaſſe
A fazenda, com que ſe reſgataſſe.

Vem a fazenda a terra, aonde logo
A agaſalhou o iffame Catual:
Coella ficam Aluaro & Diogo,
Que a podeſſem vender pelo que val,
Se mais que obrigação, que mando & rogo
No peito vil o premio pode, & val,
Bem o moſtra o Gentio a quem o entenda,
Pois o Gama ſoltou pela fazenda.

Por ella o ſolta, crendo que ali tinha
Penhor baſtante, donde recebeſſe
Intereſſe maior do que lhe vinha,
Se o Capitão mais tempo detiueſſe:
Elle vendo que ja lhe nam conuinha
Tornar a terra, porque nam podeſſe
Ser mais retido, ſendo aas naos chegado
Nellas eſtar ſe deixa deſcanſado.

Nas naos estar ſe deyxa vagaroſo,
Atê ver o que o tempo lhe deſcobre,
Que não ſe fia ja do cobiçoſo
Regedor corrompido, & poauco nobre.
Veja agora o juyzo curioſo
Quanto no rico, aſsi como no pobre
Pode o vil intereſſe & ſede imiga
Do dinheyro, que a tudo nos obriga.

A Polidoro mata o Rey Treicio,
Sò por ficar ſenhor do grão teſouro:
Entra, pelo fortiſsimo edificio,
Com a filha de Acriſo a chuua douro:
Pode tanto em Tarpeia auaro vicio,
Que a troco do metal luzente, & louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quaſi afogada empago morre.

Eſte rende munidas fortalezas,
Faz tredoros, & falſos os amigos,
Eſte a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos:
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra, ou fama algũs perigos,
Eſte depraua as vezes âs ciencias,
Os juyzos cegando, & as conſciencias.

Eſte interpreta mais que ſutilmente
Os textos. eſte faz & desfaz leis:
Eſte cauſa os perjurios entre a gente:
E mil vezes tirânos torna os Reis.
A te os que ſo a Deos omnipotente
Se dedicão, mil vezes ouuireis,
Que corrompe eſte encantador, & illude:
Mas não ſem cor com tudo de virtude.

F I M.