❧ Canto Nono.

Tiuerão longamen-
te na cidade
Sem vender ſe a fazenda os do-
us feitores,
Que os infieis por manha, & falſidade
Fazem, que nam lha comprem mercadores,
Que todo ſeu propoſito, & vontade
Era, deter ali os deſcubridores
Da India, tanto tempo que vieſſem
De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem.

La no ſeio Eritreo, onde fundada
Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo,
Do nome da irmã ſua aſsi chamada,
Que deſpois em Suez ſe conuerteo,
Não longe, o porto jaz da nomeada
Cidade Meca, que ſe engrandeceo
Com a ſuperstiçam falſa, & profana,
Da relegioſa agoa Maumetana.

Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato
De todo o roxo mar mais florecia,
De que tinha proueito grande, & grato
O Soldão que eſſe Reino poſſuia:
Daqui aos Malabares, por contrato
Dos infieis, fermoſa companhia
De grandes naos, pelo Indico Oceano,
Eſpeciaria vem buſcar cada anno.

Por eſtas naos os Mouros eſperauão,
Que como foſſem grandes & poſſantes
Aquellas, que o comerçio lhe tomauão,
Com flamas abraſaſſem crepitantes:
Neſte ſocorro tanto confiauão,
Que ja nam querem mais dos nauegantes,
Se nam que tanto tempo ali tardaſſem,
Que da famoſa Meca as naos chegaſſem.

Mas o Gouernador dos ceos, & gentes,
Que pera quanto tem determinado,
De longe os meios dâ conuenientes,
Por onde vem a effeito o fim fadado,
Influio piadoſos accidentes
De affeiçam em Monçaide, que guardado
Estaua pera dar ao Gama auiſo,
E merecer por iſſo o Paraiſo.

Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão,
Por ſer Mouro como elles, antes era
Participante em quanto machinauão,
A tençam lhe deſcobre torpe, & fera:
Muitas vezes as naos que longe eſtauão
Viſita, & com piedade conſidera
O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena,
Pela maligna gente Sarracena.

Informa o cauto Gama das armadas,
Que de Arabica Meca vem cadano,
Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas,
Pera ſer inſtrumento deſte dano:
Diz lhe que vem de gente carregadas,
E dos trouões horrendos de Vulcano,
E que pode ſer dellas opremido,
Segundo eſtaua mal apercebido.

O Gama que tambem conſideraua
O tempo, que pera a partida o chama,
E que deſpacho ja não eſparaua
Milhor do Rei, que os Maumetanos ama:
Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua
Que ſe tornem aas naos: & porque a fama
Deſta ſubita vinda os não impida,
Lhe manda que a fizeſſem eſcondida.

Porem não tardou muito, que voando
Hum rumor nam ſoaſſe com verdade,
Que forão preſos os feitores, quando
Foram ſentidos virſe da cidade:
Eſta fama as orelhas penetrando
Do ſabio capitão, com breuidade
Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão,
A vender pedraria que trouxerão.