Algum repouſo em fim, com que podeſſe
Refucilar a laſſa humanidade
Dos nauegantes ſeus, como intereſſe
Do trabalho, que incurta a breue idade:
Parecelhe razão que conta deſſe
A ſeu filho, por cuja poteſtade
Os Deoſes faz decer ao vil terreno,
E os humanos ſubir ao ceo ſereno.
Iſto bem reuoluido, determina
De terlhe aparelhada la no meio
Das agoas, algũa inſula diuina,
Ornada deſmaltado & verde arreio:
Que muitas tem no reino, que confina
Da primeira co terreno ſeio,
Afora as que paſſue ſoberanas,
Pera dentro das portas Herculanas.
Ali quer que as aquaticas donzellas,
Eſperem os fortiſsimos barões,
Todas as que tem titolo de bellas,
Gloria dos olhos, dor dos corações,
Com danças, & coreas, porque nellas
Influirâ ſecretas affeições,
Pera com mais vontade trabalharem
De contentar a quem ſe affeiçoarem.
Tal manha buſcou ja, pera que aquelle
Que de Achiſes pario, bem recebido
Foſſe no campo que a bouina pelle
Tomou de eſpaço, por ſutil partido:
Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle
Tem todo ſeu poder, fero Cupido,
Que aſsi como naquella empreſa antiga
A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga.
No carro ajunta as aues, que na vida
Vão da morte as exequias celebrando,
E aquellas em que ja foi conuertida
Peristera, as boninas apanhando:
Em derredor da Deoſa ja partida,
No ar laſciuos beijos ſe vão dando,
Ella por onde paſſa o ar, & o vento
Sereno faz, com brando mouimento.
Ia ſobre os Idalios montes pende,
Onde o filho frecheiro eſtaua então,
Ajuntando outros muitos, que pretende
Fazer hũa famoſa expedição
Contra o mundo reuelde, porque emende
Erros grandes, que ha dias nelle eſtão,
Amando couſas que nos ſorão dadas,
Nam pera ſer amadas, mas vſadas.
Via Acteon na caça, tam auſtero,
De cego na alegria bruta, inſana,
Que por ſeguir hum feo animal fero,
Foge da gente, & bella forma humana:
E por caſtigo quer doçe, & ſeuero,
Maſtra lhe a fermoſura de Diana,
E guarde ſe nam ſeja inda comido
Deſſes cães que agora ama, & conſumido.
E vè do mundo todo os principais,
Que nenhum no bem pubrico imagina,
Vê nelles, que não tem amor a mais
Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina
Vê que eſſes que frequentão os reais
Paços, por verdadeira & ſaã doctrina
Vendem adulação, que mal conſente
Mandarſe o nouo trigo florecente.
Vê que aquelles que deuem aa pobreza
Amor diuino, & ao pouo charidade,
Amão ſomente mandos, & riqueza,
Simulãdo juſtiça, & integridade:
Da fea tyrania & de aſpereza
Fazem direito, & vaã ſeueridade:
Leis em fauor do Rei ſe estabelecem,
As em fauor do pouo ſo perecem.
Vê em fim que ninguem ama o que deue,
Se não o que ſomente mal deſeja,
Não quer que tanto tempo ſe releue,
O castigo que duro, & justo ſeja:
Seus miniſtros ajunta, porque leue
Exercitos conformes aa peleja,
Que eſpera ter coa mal regida gente,
Que lhe não for agora obediente.