Muitos deſtes mininos voadores,
Eſtão em varias obras trabalhando,
Hũs amolando ferros paſſadores,
Outros aſteas de ſetas delgaçando,
Trabalhando cantando estão de amores,
Varios caſos em verſo modulando,
Melodia ſonora, & concertada,
Suaue a letra, angelica a ſoada.
Nas fragras immortais, onde forjauão,
Pera as ſetas as pontas penetrantes,
Por lenha, corações ardendo eſtauão,
Viuas entranhas inda palpitantes:
As agoas onde os ferros temperauão,
Lagrimas ſam de miſeros amantes,
A viua flama, o nunca morto lume,
Deſejo he ſo que queima, & não conſume.
Algũs exercitando a mão andauão,
Nos duros corações da plebe ruda,
Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão,
Dos que feridos vão, da ſeta aguda,
Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão
As chagas recebidas, cuja ajuda
Não ſomente dâ vida aos mal feridos:
Mas poem em vida os inda não naſcidos.
Fermoſas ſam algũas, & outras feas,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno eſpalhado pelas veas,
Curão no aas vezes aſperas triagas
Algũs ficão ligados em cadeas,
Por palauras ſutis de ſabias Magas,
Iſto acontece aas vezes quando as ſetas
Acertão de leuar eruas ſecretas.
Deſtes tiros aſsi deſordenados,
Que estes moços mal deſtros vão tirando,
Naſcem amores mil desconcertados,
Entre o pouo ferido miſerando,
E tambem nos heroes de altos eſtados,
Exemplos mil ſe vem de amor nefando,
Qual o das moças, Bibli, & Cynirea
Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea.
E vos ô poderoſo por paſtoras
Muytas vezes ferido o peyto vedes,
E por bayxos, & rudos vos ſenhoras
Tambem vos tomão nas Vulcanias redes,
Hũs eſperando andais nocturnas horas,
Outros ſubis telhados & paredes,
Mas eu creyo que deſte amor indino,
He mais culpa a da mãy, que a da minino.
Mas ja no verde prado o carro leue,
Punhão os brancos Ciſnes manſamente,
E Dione, que as roſas entre a neue
No rosto traz, decia diligente:
O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue,
A recebella vem, ledo, & contente,
Vem todos os cupidos ſeruidores,
Beijar a mão aa Deoſa dos amores.
Ella porque não gaſte o tempo em vão,
Nos braços tendo o filho, confiada
Lhe diz, amado filho, em cuja mão
Toda minha potencia eſtà fundada:
Filho em quem minhas forças ſempre eſtão,
Tu que as armas Tifeas tẽs em nada,
A ſocorrer me a tua poteſtade,
Me traz eſpecial neceſsidade.
Bem ves as Luſitanicas fadigas,
Que eu ja de muito longe fauoreço,
Porque das Parcas ſey minhas amigas,
Que me ande venerar & ter em preço,
E porque tanto imitão as antigas
Obras de meus Romanos, me offereço
A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo,
A quanto ſe estender o poder noſſo.
E porque das inſidias do odioſo
Baco foram na India moleſtados,
E das injurias ſos do mar vndoſo,
Poderão mais ſer mortos, que canſados:
No mesmo mar, que ſempre temeroſo
Lhe foi, quero que ſejão repouſados,
Tomando aquelle premio, & doçe gloria
Do trabalho que faz clara a memoria.