Pois a tapeçaria bella & fina,
Com que ſe cobre a ruſtico terreno,
Faz ſer a de Achemenia menos dina:
Mas o ſombrio valle mais ameno:
Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina,
Sobollo tanque lucido & ſereno,
Floreçe o filho & neto de Cyniras,
Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras.

Pera julgar dificil couſa fora,
No çeo vendo, & na terra as meſmas cores,
Se daua aas flores cor a bella Aurora,
Ou ſe lha dam a ella as bellas flores:
Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora
As violas da cor dos amadores,
O Lirio roxo, a freſca Roſa bella,
Qual reluze nas faces da donzella.

A candida Cecêm das Matutinas
Lagrimas ruciada, & a Manjarona,
Venſe as letras nas flores Hyacintinas,
Vem queridas do filho de Latona:
Bem ſe enxerga nos pomos & boninas,
Que competia Cloris com Pomona:
Pois ſe as aues no ar cantando voão,
Alegres animais o chão pouoão.

A longo da agoa o niueo Ciſne canta,
Responde lhe do ramo Philomela,
Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta
Acteon nagoa criſtalina & bella:
Aqui a fugace Lebre ſe leuanta
Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella,
Ali no bico traz ao caro ninho,
O mantimento ô leue paſſarinho.

Neſta freſcura tal deſembarcauão
Ia das naos os ſegundos Argonautas,
Onde pela floresta ſe deixauão
Andar as bellas Deoſas como incautas,
Algũas doçes Cytaras tocauão,
Algũas arpas, & ſonoras frautas,
Outras cos arcos de ouro ſe fingião
Seguir os animais, que nam ſeguião.

Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta,
Que andaſſem pelos campos eſpalhadas,
Que vista dos barões a preſa incerta,
Se fizeſſem primeyro deſejadas
Algũas, que na forma deſcuberta
Do bello corpo eſtauão confiadas,
Poſta a artificioſa fermoſura,
nuas lauarſe deyxão na agoa pura.

Mas os fortes mancebos, que na praya
Punhão os pes de terra cubiçoſos,
Que não ha nenhum delles, que não ſaya
De acharem caça agreſte deſejoſos:
Não cuydão que ſem laço, ou redes caya
Caça naquelles montes deleytoſos
Tão ſuaue, domeſtica, & benina,
Qual ferida lha tinha ja Ericina.

Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas
Pera ferir os Ceruos ſe fiauão,
Pelos ſombrios matos, & floreſtas
Determinadamente ſe lançauão:
Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas
Defendem a verdura, paſſeauão
Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda
Por aluas pedras corre aa praya leda.

Começão de enxergar ſubitamente
Por entre verdes ramos varias cores,
Cores de quem a viſta julga, & ſente,
Que não erão das roſas, ou das flores,
Mas da lam fina, & ſeda diferente
Que mais incîta a força dos amores,
De que ſe vestem as humanas roſas,
Fazendoſe por arte mais fermoſas.

Da Veloſo eſpantado hum grande grito,
Senhores caça eſtranha diſſe he eſta,
Se inda durão o Gentio antigo rito,
A Deoſas he ſagrada esta floresta:
Mais deſcobrimos do que humano eſprito
Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta
Que ſam grandes as couſas, & excellentes
Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes.