Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos,
Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras,
Isto dito velloces mais que Gamos,
Selançam a correr pelas ribeiras:
Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos,
Mas mais induſtrioſas que ligeiras,
Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando,
Se deixão yr dos Galgos alcançando.

De hũa os cabellos de ouro o vento leua
Correndo, & da outra as fraldas delicadas,
Acendeſe o deſejo que ſe ceua
Nas aluas carnes ſubito moſtradas,
Hũa de industria cae, & ja releua
Com moſtras mais maſias, que indinadas,
Que ſobre ella empecendo tambem caia
Quem a ſeguio pela arenoſa praia.

Outros por outra parte vão topar,
Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão,
Ellas começam ſubito a gritar,
Como que aſſalto tal nam eſperauão,
Hũas fingindo menos eſtimar
A vergonha, que a força, ſe lançauão
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que aas mãos cobiçoſas vão negando.

Outra como acudindo mais de preſſa,
Aa vergonha da Deoſa caçadora,
Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa
Por tomar os veſtidos, que tem fora:
Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa
Veſtido aſsi & calçado (que co a mora
Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde)
A matar na agoa o fogo que nelle arde.

Qual tão de caçador ſagaz, & ardido,
Vſado a tomar na agoa a aue ferida,
Vendo roſto o ferreo cano erguido,
Pera a Garcenha, ou Pata conhecida,
Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido
Salta nagoa, & da preſa nam duuîda,
Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo
Remete ha que nam era yrmaã de Phebo.

Lionardo ſoldado bem deſpoſto,
Manhoſo, caualleiro, & namorado,
A quem amor não dera hum ſo deſgoſto,
Mas ſempre fora delle mal tratado:
E tinha ja por firme proſuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porem não que perdeſſe a eſperança,
De inda poder ſeu fado ter mudança.

Quis aqui ſua ventura, que corria
Apos Efire, exemplo de belleza,
Que mais caro que as outras dar queria,
O que deu para darſe a natureza,
Ia canſado correndo lhe dizia.
O fermoſura indigna de aſpereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Eſpera hum corpo de quem leuas a alma.

Todas de correr canſam, Nimpha pura,
Rendendo ſe aa vontade do inimigo,
Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura?
Quem te diſſe que eu era o que te ſigo?
Se to tem dito ja aquella ventura,
Que em toda a parte ſempre anda comigo,
O nam na creas, porque eu quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

Nam canſes, que me canſas: & ſe queres
Fujirme, porque nam poſſa tocarte,
Minha ventura he tal, que inda que eſperes
Ella farâ que nam poſſa alcançarte:
Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres,
Que ſutil modo buſca de eſcaparte,
E notarâs no fim deſte ſucceſſo,
Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.

O não me fujas, aſsi nunca o breue
Tempo fuja de tua fermoſura,
Que ſo com refrear o paſſo leue,
Vencerâs da fortuna a força dura:
Que Emperador, que exercito ſe atreue.
A quebrantar a furia da ventura,
Que em quanto deſejey me vai ſeguindo,
O que tu ſo faras nam me fugindo?