Outra razão serviu de estimulo para a partida dos filhos da casa, dissimulada com o pretexto da necessidade da mudança de ares. Antigas relações de parentesco ligavam a familia dos Mascarenhas com o segundo ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuia grandes bens na mesma comarca, aonde existia o solar dos Coutinhos. O logar do Arripiado, que tão viçoso beija as aguas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados campos e charnecas, pertencia ao velho D. Nuno, cujo filho unico, D. Affonso de Noronha, saira da côrte para o exercito do Alemtejo. D. Affonso, illustre pelo berço, e já illustre pelo valor, vira crescer em belleza, primeiro com assombro, depois com paixão ardente, sua prima D. Maria de Mascarenhas, e não encobrira de seu pae o amor, que ella lhe inspirava. D. Nuno confiou este segredo á ditosa mãe, e ella, não podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes de dar o sim, quizera, comtudo, sondar disfarçadamente as inclinações da donzella. Conheceu com alegria, que D. Affonso começára a apoderar-se d'aquelle coração, que em sua innocencia principiava a balbuciar apenas as primeiras e vagas aspirações de um sentimento, que não sabia definir ainda.{65}
Corria o anno de 1663. D. João de Austria, á frente das armas castelhanas, tentára o derradeiro esforço, invadindo Portugal com dezeseis mil soldados, e os nossos generaes, juntando as forças, mal conseguiram oppor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Evora, que devia ser um dos baluartes da resistencia, accommettida no dia 14 de maio, capitulára, depois de pouco honrada defeza. Este revez aggravou os receios, e as partidas de cavallaria inimiga chegaram a insultar Alcacer. D. Sancho Manuel convocára immediatamente os officiaes a conselho, e só um voto, o d'elle, approvára a conveniencia de ferir a batalha, que as ordens do governo prescreviam como remedio extremo. A pericia de Schomberg, temendo como inevitavel o desastre, viu n'elle o ultimo precipicio da independencia; mas a feliz temeridade do conde de Villa Flor, fechando os olhos á prudencia, applaudia o encontro decisivo dos dois exercitos, como o unico meio, embora desesperado, de salvar a provincia e o reino da sujeição estrangeira.
O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praças, assaltára as casas de Sebastião Cesar, do marquez de Marialva, e de Luiz Mendes de Elvas. A todas as horas se aguardavam noticias da marcha das tropas, e todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as esperanças de Portugal!{66}
A filha de D. Magdalena, D. Maria de Mascarenhas, mais velha desoito mezes do que D. Pedro, seu irmão, contava n'esta epocha dezesete annos, e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez que o unico senão de tanta belleza fosse a sua mesma perfeição irreprehensivel. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas tranças, confundiam-se os lirios e as rozas na mais mimosa frescura. A bocca, fina e espirituosa, córada como um botão nacarado, breve como um suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expressão adoravel. Nos olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam ás vezes de uma sombra de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflammava, mas sua tranquillidade languida deixava adivinhar, que se a paixão dormia ainda, facil lhe seria, despertando, illuminar de subito e vivo fulgor aquellas pupilas descuidadas. A mão parecia formada pelo modelo de uma estatua primorosa. O pé estreito e arqueado pousava-se tão leve e elegante, que a vista como que involuntariamente se alçava a buscar nos hombros as azas da Silphide. A voz tinha condão seductor. A estatura, um pouco acima de ordinaria, e flexivel como a hastea de uma flor, tambem se dobrava como ella, parecendo que o esbelto corpo de melindroso não podia com o doce peso da fronte, em que as mil graças da primeira enamorada primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.{67}
As posições e os gestos em sua desafectada singeleza respiravam a attracção, que o calculo debalde se esforça por imitar. Tudo desmentia o arteficio. O requebro das maneiras, o imperio irresistivel da vista e do sorriso, e a magia arrebatadora das fallas e do semblante, nasciam espontaneos, prendendo os sentidos e a admiração. A formosura da alma ainda era maior, se é possivel. O coração retratava-se na fronte limpida, e os infinitos thesouros de ternura e de abnegação, que por ora concentrava nos extremos de filha e de irmã, quando se abrissem a affectos mais vehementes, promettiam todas as venturas ao amor ditoso. A pureza mais casta, a da ignorancia sublime da infancia, vestia-lhe de candura todos os pensamentos. O pejo era n'ella tão sensivel, que affrontado não só faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da indole a firmesa da vontade. Os dotes do espirito esmaltavam as qualidades moraes.
Talvez não houvesse na corte dama ou donzella tão instruida na lição das boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais acceitas e castigadas dos poetas portuguezes, hespanhoes e italianos, escolhidos por Fr. João, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.
D. Maria presava em D. Affonso de Noronha todas as distincções, que o exaltavam. Valia menos, porem, a seus olhos a illustração do berço, do que a elevação{68} do caracter e a fidalguia das acções, que em edade tão verde quasi o haviam tornado um paladino. Não seria mulher, comtudo, senão a confirmassem n'este juizo a presença insinuante do mancebo, a gentileza do seu porte e a nobre expressão da sua phisionomia. Os olhos da donzella, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do primo, aonde riam as illusões da vida e da juventude, nunca fugiam d'elles, senão a furto, e as rosas mais accezas das faces confessavam o que tentaria encobrir em vão se acaso soubesse dissimular. Nunca os labios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam. Amavam-se. A alma de um trazia sempre gravada a alma do outro, mas só a eloquencia da vista, indiscreta ás vezes, traira o segredo. D. Affonso, não podendo por mais tempo calar a chamma, que o abrazava, tinha declarado ao pae, momentos antes de metter o pé no estribo e de partir para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas esperanças, entregando-lhe a sorte d'elle. Sabemos que D. Nuno não perdera a occasião, e que D. Magdalena applaudia o enlace proposto.
A chegada repentina dos filhos de D. Magdalena, da aya e do escudeiro, com alguns criados velhos, colheu de sobresalto o feitor Paulo Rodrigues. Tomado de subito o manhoso camponez, soubera disfarçar o embaraço e as apprehensões, mas custara-lhe a conformar-se com a presença dos amos na casa, que{69} havia tantos annos estava costumado a olhar mais como sua do que d'elles. Mandou varrer e aceiar á pressa duas salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a mulher e os filhos nos vãos do palacio, e ainda se lhe carregou mais a viseira quando soube que a senhora e Fr. João Coutinho poucos dias se demorariam atraz da familia.
No primeiro dia reinou profundo socego, mas na segunda noute, mal a ultima pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos quartos da aya e de Romão Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernaes. Soaram ruidos de ferros e cadeias arrastadas. Só ao alvorecer é que tudo desappareceu.
O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe sacudia os membros, quiz fazer e fez cara feia ao demonio. Na terceira noute levantou-se da cama, engrolando Padres Nossos e Ave Marias, petiscou lume, accendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao corredor, quasi em vestido de banho, mas com a comprida espada nua debaixo do braço. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e proximos gelaram-lhe o sangue, e um clarão momentaneo e sulphurio mostrou-lhe, envolto no sudario, um spectro descummunal e ameaçador.{70}