A sr.ª Brizida de Sousa, que tão avexada ouvimos queixar-se das apparições, era matrona de mais de cincoenta annos. Baixa, roliça e risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de duas maçans rainetas. As feições, pouco accentuadas, e quasi infantis, sumiam-se entre as roscas das nedias bochechas, e os seus ares beatos brigavam na candura affectada com uma larga experiencia da vida. Toda aquella pequena e buliçosa matrona respirava aceio, cuidado, devoção, e azafama. Collaça de D. Magdalena, e casada com um dos caseiros mais abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogenita da casa, enviuvára sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os affectos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas creanças, que trazia sempre na boca e no coração.{59}

Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvissimas, caidas talvez de mais para a testa, e o córte dos vestidos á beguina, affirmavam o programma da sua virtude inaccessivel. Supersticiosa, e com a memoria recheada de orações, de visões, e de devotas crendices, o seu defeito capital era occupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosario de conselhos a proposito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos, criados, e hospedes, mas sem intenção ruim. Todos se encobriam d'ella, quanto podiam, porém ninguem a aborrecia. Temiam-se da intemperança de suas confidencias, mas confessavam a bondade do seu caracter, que era na verdade excellente.

Romão Pires, tirando a estafada repetição de suas campanhas, representava em tudo o opposto d'ella. Sério, como um santão, embizourado, e quasi sempre com a aguda barba escondida na gargantilha, se levantasse a vista e a curiosidade para os negocios dos outros, cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e segredo que lhe caisse no peito ficava sepultado n'elle profundamente.

Apesar d'estas qualidades contrarias e talvez mesmo pelas possuir, era o conselheiro nato da sr.ª Brizida em todos os casos intrincados, e o defensor convicto dos seus mêdos e indiscrições.—«Boa alma! Boa alma! respondia aos que a censuravam.{60} Tem o defeito de fallar de mais, mas é uma santa pessoa.»—Brizida pagava-lh'o. Para escutar a milessima edição das guerreiras epopeias do escudeiro, até fazia o sacrificio de suspender a loquacidade propria!...

O sr. Romão Pires, amortalhado na eterna roupeta e n'umas calças côr de pulga, esguio, comprido, e hirto, com um par de oculos de azelha montado no cavallete do interminavel nariz, não desabotoava a seriedade do rosto, nem dava ferias ao enfado chronico senão para sorrir á sua comadre Brizida. Aquelles olhos verdes desbotados não se animavam senão para festejar algum bom dito da matrona, cujas fallas assucaradas contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeão da independencia portugueza. A predilecção honesta, mas decidida dos dois um pelo outro, não escapára aos criados, e todos acreditavam que, cedo ou tarde, o vinculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a união de duas almas já tão intimas.

A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita do Tejo, estendia as matas e charnecas até á ribeira, que separa Paio Pelle da villa de Tancos, da qual a casa, construida sobre uma colina, distaria pouco mais de dois ou tres tiros de espingarda. Era palacio antigo, talvez fundado por meiados do seculo XIV, accrescentado, e reparado pelos fins do XVI. As ameias, já derrubadas{61} em muitos lanços de muro, proclamavam a sua velha e legitima nobreza. Duas alas terminadas por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fóra do corpo principal do edificio, formavam os lados do espaçoso terreiro, rasgado diante da fachada, cujas doze janellas de architectura irregular olhavam para elle. No terreiro se tinham jogado cannas e corrido touros nos anniversarios festivos dos senhores.

A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e articulações das pedras carcomidas cresciam tufos de viçosas parietarias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras, resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol até ao primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava serventia por uma rampa para os subterraneos allumiados ao rez do chão por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas nuas, frias e tristes, lageadas de ladrilho. Sobre os corredores por onde o ar e uma luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas envidraçadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros, crusados de passagens, de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo desde o andar terreo até aos vãos debaixo dos telhados, uma rêde inextricavel, um verdadeiro labyrintho. A casa de jantar, forrada de carvalho em molduras, prolongava-se á maneira de refeitorio{62} entre dois extensos corredores. Na extremidade de um d'elles baixava uma escada para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para os vãos, os quaes por cima corriam em largura e comprimento da casa. As torres communicavam-se com o corpo do edificio por duas portas esguias e abobadadas, aferrolhadas havia longos annos. Os eirados, meio abatidos, vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudaes do inverno.

O jardim, ornado de canteiros e de poiaes azulejados, com um tanque de pedra no meio, e um satyro hediondo entornando a urna desforme, creava algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de pão, cingidas de vallados altos, defendidos com pitteiras. O aspecto do palacio era carregado de melancholia. Rodeado de solidão justificava em sua tristeza as queixas, que ouvimos á sr.ª Brizida. Porque escolhera, porém, D. Magdalena aquelle êrmo para abrigo dos filhos e dos criados, quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas aonde podessem respirar, longe do bulicio da côrte o ar do campo?

D. Magdalena descendia da familia illustre dos Coutinhos Noronhas, de que fôra tronco e progenitor o marechal Gonçalo Vaz Coutinho, senhor do couto de Leonil, e meirinho-mór por el-rei D. Fernando na comarca da Beira. Formosa, discreta e recatada,{63} perdera seu marido, D. Vasco Mascarenhas, mestre de campo dos exercitos de D. João IV e D. Affonso VI, havia tres annos, e ainda não enxugára as lagrimas da viuvez. Em edade de merecer e de acceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa de Lisboa, aonde não recebia senão as visitas de alguns amigos antigos da familia, guiando-se em tudo pelos conselhos de fr. João Coutinho, seu irmão, grande sabio, e doutor em canones e theologia, o qual se encarregára de dirigir a educação litteraria dos sobrinhos.

D. Vasco Mascarenhas, tão distincto pelo nascimento, como pelas qualidades do caracter e do espirito, unira ás propriedades de sua casa, já mui rica, o senhorio da villa de Paio Pelle e do castello de Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quasi sempre occupado na côrte com os negocios politicos e no serviço activo das armas, só duas vezes visitára de fugida aquelle solar desamparado, que principiava a cair em ruinas, entregando o grangeio das terras e a cobrança dos direitos do donatario, com excessiva confiança, diziam os murmuradores, á probidade equivoca do feitor Paulo Rodrigues, camponez avido e ladino, que mais as disfructava como usurario, do que as geria como administrador. Avisada de que o palacio e as fazendas se arruinavam n'aquellas mãos viscosas, D. Magdalena resolvera ver por seus olhos o verdadeiro estado{64} das cousas, na companhia de seu irmão, fr. João Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais conveniente.