—Então!? Elles fazem-se homens, e nós fazemo-nos velhos. Não ha remedio. O mundo vae assim.
—Bem sei. Mas, não os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que é da edade e do muito crescer, e que hão de encorpar depois. Deus queira! São os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos meus meninos. A sr.ª D. Maria manhãs e tardes inteiras á almofada, bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeição!... Que dedinhos de fada aquelles! E o sr. D. Pedro? É mesmo uma dôr de alma vel-o dia e noite amarrado á banca dos livros, e que livros! Latins, gregos, e não sei que outras trapalhadas de retroricas... Quem tem a culpa de tudo, o culpado de tudo o que póde acontecer, é o teimoso do sr. fr. João, que á fina força{56} quer o sobrinho sabio. Depois que falleceu o pae, (Deus o tenha em gloria!) não se nos tira de casa, e tanto ha de quebrar-me a cabeça ao meu menino, que um dia treslê. Pois olhe, sr. Romão Pires, vá com o que lhe diz uma ruim cabeça: mais vale asno vivo, que doutor morto.
—O sr. fr. João, atalhou Romão Pires, aproveitando uma pausa da sr.ª Brizida, é muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido um segundo pae para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes merecimentos. Não lh'o levemos a mal. Sangue illustre e bens da fortuna possuem elles...
—Por isso mesmo! Não precisava atanazarmos tanto! Não m'os deixa respirar. Mestres d'isto, mestres d'aquillo, musica para aqui, dansa para acolá... latins, pholosophias, ai, que barafunda! Nem eu sei como as pobres creanças não teem endoudecido. Cá por mim já o miolo ha muito tempo me tinha dado volta, tão certo como chamar-me eu Brizida de Sousa.
—Ninguem aprende sem trabalho. O sr. fr. João não é nenhum nescio...
—Nem eu lh'o chamo. Deus me livre. Nescio?... No convento e na côrte dizem que não ha outro doutor como elle.
—Pois então deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos são a luz dos seus olhos, e depois tão meigos, tão applicados...{57}
—De mais, de mais, para a edade, sr. Romão Pires. Assustam-me. Não parecem d'este mundo, nem d'este seculo. O sr. fr. João é muito extremoso, e o que faz é por desejar o seu bem d'elles, mas, graças a Deus, a casa é rica e não era preciso amofinar-me tanto os meus meninos...
O dialogo de que acabamos de ser fieis e escrupulosos expositores, era travado em uma antiga sala, vasta e pouco allumiada por estreitas janellas, cujas vidraças de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes em reboco pendiam farrapos soltos dos pannos, que as tinham forrado. Em outras partes as colgaduras adheriam ainda aos filetes, e representavam em suas pinturas desvanecidas figuras descommunaes, debaixo de arvores anãs, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tectos, cujas vigas lavradas inculcavam a paciencia de um artifice do XV seculo, subiam a grande altura, enegrecidos pelo fumo da immensa chaminé de pedra, ornada de leões de marmore nas bases, e rematada com um brazão de relevo alto, orlado de ramos de silvas e amoras.
O sr. Romão Pires, escudeiro de quasi setenta annos de edade, enxuto de carnes, e amarello como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma das faias mais direitas da quinta. Nascêra e fôra creado desde a infancia n'aquella casa, e não conhecera nunca outros amos senão D. Vasco, e D.{58} Magdalena. Acompanhára seu senhor, assim lhe chamou sempre, em todas as campanhas da guerra da restauração, pelejando esforçadamente ao lado d'elle, e assistindo aos cercos e batalhas mais notaveis desde 1642. A historia dos perigos, em que se tinha achado, e a narração das proezas de seu amo, enfeitada de episodios e commentarios, serviam de saboroso pasto aos serões da familia, obrigada a engulir como artigos de fé todas as aventuras da nova «Tavola Redonda,» que a imaginação do escudeiro entretecia na tela interminavel de sua cansativa Illiada.