—Tambem eu não gosto nada d'isto, sr.ª Brizida. Mas animo forte e coração á larga. O demonio parece que entrou de semana comnosco, e, pelo que vejo, não leva geito de nos querer largar. Desde que viemos para esta quinta...

—Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brizida de Sousa me não chamasse eu, se depois da primeira noite não mettesse um bom par de legoas entre o demonio e quem se présa de christã baptisada na freguezia de Santa Catharina de Lisboa, nascida de paes catholicos, tementes a Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho á minha menina, coitadinha, tudo me faz supportar com paciencia... Espere! Não ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?

—Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no chão lá em cima. De dia não é que elles fazem das suas...

—É verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de noites, Senhor Deus de misericordia! Parece que nunca a gente lhes vê o fim. E que me diz então a estas despedidas de maio e entradas de junho?!...

—Não são de convidar, sr.ª Brizida! Velho sou,{54} mas não me lembro de anno mais carrancudo. Chuvas, relampagos, trovões e ventanias que levam tudo pelos ares! Safa!

—E nós, coitados, n'este ermo, n'este desterro! Ai minha Senhora Santa Barbara! se a tua serva e devota não deixa aqui os ossos, grande milagre será. Escute!... Agora não foi engano!... Não ouviu risadas lá em cima no vão das casas?

—Não é nada. São os rapazes do feitor jogando as escondidas.

—Pois, sr. Romão Pires, affirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa, quando minha senhora D. Magdalena me chamou e me disse: «Brizida, a sua menina anda fraquinha e enfezada, e o irmão tambem, os phisicos não acertam com o remedio, e fr. João entende que estas tosses do peito, assim teimosas, não se despegam senão com mudança de ares. Bem sabe, não posso sair da cidade por estes dias mais chegados—e é assim, coitada, por causa da sua demanda—acompanhe-me os meninos, e conte que fico tão socegada como se eu mesma fosse...» Quando me disse isto, e eu lhe beijei as mãos pela mercê, se podesse adivinhar o que nos esperava aqui, asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem quizesse... Isto não é palacio, nem quinta, é um verdadeiro inferno! Deus salve a minha alma!

—A sr.ª Brizida não diz o que sente. Vindo a{55} sr.ª D. Maria e o sr. D. Pedro, ninguem a arrancava de ao pé d'elles.

—Tem razão. Ninguem! A ella creei-a, mamou o meu leite, e sua mãe não lhe quer mais, não, deixe-me ter esta presumpção... A elle vi-o nascer, e os primeiros braços, que o embalaram, foram estes que hade comer a terra. Tão pequeninos os conheci, e tão formosos e crescidos os vejo agora, que não me posso costumar a crer, que um dia hei de ter o gosto de os abraçar homens!... Quando me ponho a olhar para elles, parece-me ás vezes que não póde ser, e que tudo isto é sonho...