[O CASTELLO DE ALMOUROL][[1]]

[CONTO DO SECULO XVII]

[I]

—Ai, Virgem Santissima! Não ganha a gente para sustos! Não bastava esta praga dos castelhanos, que vem ahi, dizem, um poder do mundo d'elles pelo Alemtejo abaixo?! Ó sr. Romão Pires, d'onde elles estão aqui á nossa quinta é muito longe?

—Não é nada perto, não, sr.ª Brizida de Sousa! Mas lá diz o adagio: aos que muito correm quebram-se-lhes{52} as pernas... Socegue. O sr. conde de Villa Flôr anda com elles a contas e não é para graças.

—O sr. conde é muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi dizer... Mas se elle ficasse mal agora?

—Ficavamos nós peior, isso é verdade... Melhor o hade fazer Deus. Oh, se meu senhor e amo fosse vivo!... Não estava eu aqui posto ao canto como um estafermo!...

—Ora não diga isso por quem é. O sr. Romão já andou demais por essas guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O que seria de mim sósinha n'estes palacios confusos, sem pregar olho ha umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro mundo! Ó sr. Romão Pires, diga-me: o demonio—salva tal logar—terá poder de subverter comsigo no inferno corpo e alma uma creatura baptisada e remida nas santas aguas?...

—Conforme! Se não estiver em estado de graça!...

—Credo! S. Braz e S. João! Meus ricos santos da minha alma, valei-me! Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericordia!... Sabe que mais? Quero que me escreva já e já á sr.ª D. Magdalena, contando-lhe tudo isto. Ella não póde consentir que a sua criada velha uma noite d'estas desappareça nas garras{53} do inimigo tentador do genero humano. Jesus!... Diga-lhe que nos venha livrar d'este inferno, senão... eu cá por mim fujo! Primeiro a salvação da minha alma...