A aza negra da tempestade varria a face da terra.... Que vulto é aquelle, que as labaredas rodeiam emoldurando-o encostado ao arco no eirado da torre Albarran? Fogem-lhe aluidas debaixo dos pés as lageas abrazadas e não recúa. Sobre a cabeça crusam-se mil centelhas e não as sente. Ao lado estalam e desabam os madeiros com fragor, racham-se e abatem as paredes, e não as vê! O temporal fustigando os cedros, estronca-os; o raio, fuzilando, lasca os penhascos da montanha; as torrentes, crescendo tumidas, inundam as margens como rios caudalosos. Que escudo cobre, pois, aquelle homem que todos os perigos e horrores da vida conjurados não o aballam? A desesperação! Que lhe importam ao desgraçado as ameaças do ceu, ou as ruinas da terra? Esconde no seio a peior das mortes. Morrera em vida. O castello de seus avós será o sepulcro do ultimo descendente de uma grande raça.
Soltou por ultimo do peito um rugido immenso. A côr livida da ira dava-lhe á face o aspecto de um cadaver. Encurva o arco, reteza a corda, e a vista mede o espaço. Ai do que aparar o tiro! A seta só espera um aceno para voar sibilando ao seu alvo....
Tres vezes estalou o trovão, e tres vezes um lençol{47} de fogo jorrou dos ceus abertos. Soa distinctamente o galope de um cavallo. As ferraduras, raspando as fragas, fazem saltar as faiscas umas atraz das outras. Armas brancas, capello sem viseira, no peito o açor do Douro. Será D. Moço Ansures? Á claridade dos relampagos, á luz do facho sacudido pelo cavalleiro negro, viram todos o corsel do mancebo ennovelado sobre a aresta do precipicio, quasi a escorregar pelas rochas aprumadas. Cavallo e cavalleiro arquejam suspensos de um fio sobre o abysmo. O que Inigo lhe disse, o que elle respondeu, ninguem o ouvio. O vento bramia forte. Pouco depois descortinava-se D. Moço enristando a lança meio corpo debruçado para o precipicio, e o renegado arremeçando o facho ás aguas para se rodear de trevas. O braço do Maldito alçou de subito a espada e o golpe descia já... quando uma seta passa assoviando. O mancebo vio então o seu inimigo rolar aos pés do ginete e logo apoz um corpo dobado nos ares, resvalar, batendo nas pontas das rochas até se atufar dilacerado e disforme nos cachões da nascente, que espirram a grande altura espuma e sangue.
Do castello, no eirado fronteiro, uma voz cheia e vibrante levanta brados de triumpho, e por momentos avulta a estatura gigante do conde Ordonho, cosida nas chammas, immovel e magestosa, com os cabellos soltos ao temporal. Depois abateu-se a torre com grande estrepito, as quadrellas alluiram-se, as traves{48} accesas remoinharam e cairam, e entre os destroços, como em leito tranquillo, o velho guerreiro adormeceu do somno eterno. Honra ao que morre amortalhado em suas armas e envolto no seu pendão! Ao cabo de sessenta annos de pelejas o fronteiro sepultou comsigo a orgulhosa raça de riba d'Ave, e do seu castello só ficaram de pé aquella torre negra, que alem vemos, e a hermida aonde jazem os ossos de Pedro Ansures.
—E D. Moço? perguntou Martim Paes.
—E Auzenda? acudiu D. Nuno.
D. Moço, cumprindo já de noute o seu voto, teve um presentimento, e, cravando esporas no cavallo, despediu a carreira veloz por cabêços, fragas, e alcantis. Já perto do castello, deu-lhe no rosto o clarão do incendio e viu-o arder. Apertando o corsel, correu como louco, e só parou quando o facho do cavalleiro negro lhe cegou os olhos. O que succedeu então já vos contei. Apenas Inigo expirou, desfez-se o encantamento. D. Moço buscou Auzenda. Encontrou-a, mas sem vida! Levaram-a os monges á capella, puzeram-lhe na cabeça uma corôa de cecens, e a terra comeu de quinze annos a formosura mais invejada das Hespanhas.
D. Moço, desde esse dia, não viveu. A saudade matou-lhe a alegria, a esperança, e a juventude. Nunca mais vestiu armas. O que iria pedir ás batalhas? A gloria? Não tinha com quem a repartir. A morte?{49} Para quê? Não a sentia já no peito? A liberdade da terra do seu berço? Ai! Nem essa ideia mesmo podia fundir já os gelos d'aquelle coração!... Sombra do que fôra, o que fazia o desgraçado n'este desterro cruel, sem affectos, sem amigos, sem consolações? Como o carvalho, que o raio feriu na força do crescimento debruça os ramos mirrados e se torce e definha até cair, a dôr e a memoria, verdugos implacaveis das existencias desgraçadas, minavam-lhe a vida, seccando-lh'a na raiz.
Sobre a madrugada o somno pousava-lhe a medo nas palpebras molhadas de lagrimas. Então a febre do delirio representava-lhe junto do leito a doce imagem, que trazia no coração. Era ella! Via-a, como nos dias ditosos. A mesma grinalda de flores do campo sustinha os cabellos louros que fugiam em ondas; as mesmas roupas alvas desenhavam as formas virginaes; nos olhos sempre a luz suave do amor, que o fizera tão feliz; nos labios aquelle sorriso em botão, que se abria casto como a rosa. O mancebo queria estreitar a visão querida ao peito, e acordava, chorando, porque só abraçára o ar. N'este tormento agonisou por mezes até que Deus, compadecido, lhe enviou a morte a um mosteiro humilde, aonde se recolhera.
Quando o amortalharam, os monges acharam-lhe unido ao peito, sobre o coração, um laço de cabellos; e no quarto de alva o frade, que ficára orando a velar{50} a tumba, contou depois que vira apparecer uma dama, formosa como os anjos, e inclinar-se triste sobre o corpo. De dentro do ataude saiu um braço, e ella, com a sua mão na mão do morto, passar-lhe um annel no dedo e cingir-lhe a corôa de boninas que trazia, na fronte descorada. Um guerreiro de armas negras, e de estatura descommunal, por tres vezes lutou para romper o circulo luminoso, que a rodeava, e outras tantas, vencido por braço invisivel, se prostrou com a face no pó do templo. Eram as nupcias dos mortos, o noivado de Auzenda e de Ansures? Era ainda a sombra de Inigo Lopes perseguindo na donzella o sangue inimigo e a vingança contra o conde Ordonho? Altos mysterios de Deus. Quem ousaria prescutar os segredos da sua justiça, e os prodigios da sua clemencia infinita?!{51}