—Erusigis! Escudeiro!... A minha acha adamascada! clamou o senhor de St.ª Olaia. Este pulso pode com ella. Nem diamantes a embotaram. Aqui todos! gritou depois em grande brado.

Palpitou a esperança esmorecida nos peitos mais desalentados. Ergueram-se as achas... Golpes de cem machados, rigor furioso de cem robustos braços ferem a um tempo com ancia mortal a porta maciça e chapeada. O roble gemeu, o ferro chispou fogo, os gonzos tremem... Mas nas taboas nem signaes dos finos gumes. Os machados, estalando, lascam até aos cabos. Por cima do ruido das pancadas e do alarido das vozes rompem risadas altas. D. Ordonho volveu os olhos. Na coroa do rochedo campeia{44} o cavalleiro negro. As aguas espumavam por baixo dos pés do corcel; a mão direita brandia um facho; a esquerda só peava com as redeas o cavallo preto, quasi no ar sobre o abysmo.

—Conde Ordonho! Esta fogueira faltava á tua festa do S. João. Accendi-a eu. Pago as arrhas da formosa noiva.

—Maldito!...

—Esquecias já D. Pedro Ansures, morto por ti ha quatorze annos?! Chegou o dia e a hora das ultimas contas. O sangue dos teus vingará o sangue dos meus. Cumpriu-se o voto de Inigo Lopes.

Ditas estas palavras, como se o inferno as soprasse, as chammas em vagas furiosas investiram o castello por todas as partes. D. Ordonho ajoelhou. No hombro tinha reclinado outra vez o lindo corpo de Auzenda sem sentidos. As faces desbotadas da donzella tocavam o rosto queimado do velho; as tranças de ouro misturavam-se com as madeixas brancas; os olhos languidos, em que expirava a doce luz da vida, cerravam-se mortaes.

—Castigai-me, Senhor! bradava o conde, chorando como creança. O sangue verteu-o esta mão culpada.... Feri a cabeça do peccador saciado de annos e de amarguras! Mas esta innocente! O que fez para acabar assim?... Poupai-a em vossa justiça!.

Dizendo isto apertava a neta contra o coração. O que não daria n'aquelle instante o senhor de tantos{45} vassallos e castellos por alguns palmos de terra livre, por uma respiração pura da briza nocturna, que nos serros vizinhos refrigerava as miserias do escravo?

O conde ergueu-se de novo. As almas viris podem vergar um momento, mas não quebram... As maiores dores calaram-se diante da sua dôr; o pranto enxugou-se em todos os olhos; e os mais intrepidos estremeceram, vendo passar muda e terrivel aquella vingança! Eil-o vai o velho fronteiro! Nem capello de aço lhe cobre a fronte núa, nem arnez lhe veste o peito descoberto. Leva porem a morte escripta no rosto. O sombrio clarão do desespero reluz nas orbitas ensanguentadas. A voz emudeceu nos labios, brancos e descorados. Deixai-o ir! É o castigo de Deus que se adianta! Inclinai-vos! É o santo amor de pae que o inspira!

A aguia real não caiu logo. Varado o peito, sobe e perde-se nas alturas para depois baixar inerte. Vai morrer longe da terra sobre as nuvens. Que fogo ameaçador na vista immovel! Que fria raiva no vôo lento! Guarde-se o falcão. Primeiro perderá a vida que o rei dos ares. Assim era D. Ordonho!... A lua escondeu-se. A tormenta rugia ao longe. O vento lastimava-se soturno. A distancia, nos outeiros e plainos, refletia-se o clarão avermelhado do incendio. O fumo em rollos salpicados de faiscas estendia-se como toldo immenso. As aguas e o furacão confundiam{46} os bramidos. Os relampagos lambiam a crista dos montes. O trovão estourava em estampidos medonhos.