No logar vazio destinado a honrar a memoria do pae de Ansures, appareceu de repente um homem sentado. Vestia armas pretas com a viseira callada e na cotta o açor bordado. Descalçando o guante direito, e empunhando a primeira taça cheia, ergueu-a lentamente.

—Bem fallado, conde Ordonho! (exclamou.) Á paz da noute de S. João!..

Não bebeu, derramou o vaso, e o vinho, maculando a toalha, tornou-se vermelho e vivo como sangue. No sitio em que pousou a taça uma malha de ferro em braza queimou a alvura do linho. Alçou então a viseira. Os olhos, as feições o os modos eram exactamente os do cavalleiro assassinado havia quatorze annos; porem os cabellos e as barbas brancas lembravam, que por cima do seu corpo passára o frio da sepultura.

Alguns dos que o viram desejaram fugir, mas, petreficados por um poder occulto, não poderam mover-se. O horror gelava a todos.{40}

{41}

[IV
Enterro por noivado]

Aqui Fr. Munio fez uma pequena pausa. Depois proseguiu:

Dava meia noute. A sineta da hermida repicou tres dobres compassados. Ao primeiro as dansas estacaram. Homens e damas, suspensos e petreficados, ficaram immoveis como estatuas. Ao segundo os sons emudeceram nas cordas das violas e alaúdes. A ultima nota tremeu solitaria e reboou pelos vaõs profundos das salas. Era surdo o sopro das trompas, e o canto dos jograes transformou-se repentinamente em dies iræ que retumbou. Os cabellos erriçaram-se de horror. Ao terceiro dobre o castello tremeu e{42} vacillou dos alicerces, como se um terramoto o abalasse. Os eirados jogaram, as torres inclinaram pendidas. E o cavalleiro negro? Ainda o sino dobrava já tinha desapparecido. Que susto! Que pavor! Que immensos clamores! Muitos intentaram fugir. Debalde! As portas, sem ninguem lhes tocar, fecharam-se adiante d'elles. O portal maciço gemeu nos quicios e cerrou-se por si mesmo. Mãos invisiveis alaram as dobradiças.

Ai noute de S. João, noute aziaga! Valiam reinos os olhos que por amor de ti choraram; a alcachofra benta ardendo não brotou a flor de esperança; o palmito symbolico, em vez de rozas e de fructos, só ramas de cypreste esfolhou sobre o leito do noivado. Nos paços do conde ninguem se entendia. Estava sobre elles o poder do inferno. O suor frio borbulhava nas faces dos cavalleiros, e o tremor dos mais ousados fazia tinir a espada contra a espora. De repente raiou uma pluma de fogo na escuridão. Cresceu, alastrou-se e em breve as nuvens de fumo enrolaram-se com as labaredas enroscadas nos grossos madeiros dos tectos. Jesus! Acudi! O castello está a arder! Tudo isto se viu e se obrou em um abrir e fechar de olhos. E as portas cerradas, e os eirados tão altos, e o fosso tão fundo! N'este momento rompeu a lua outra vez o toldo sombrio, que a velava, e o seu clarão pallido lançou como um sudario sobre o rochedo talhado a pique, que se aprumava a{43} curta distancia sobranceiro ao castello. As aguas, rebentando ali á sombra de antigos choupos, ferviam de encontro ás fragas, e despenhadas espumaram batendo em cachões no leito da ribeira, que lá em baixo bramia arremessada por entre a bronca penedia.

Aonde está D. Ordonho? Junto de Auzenda desmaiada! Com ella nos braços por entre as chammas, que lhe crestavam o rosto, não correu, voou baixando de andar em andar, até ao terreiro. Ahi, olhando, viu tudo cerrado, as labaredas serpeando cada vez mais vivas e o castello pedra por pedra quasi a desconjuntar-se. Os cavalleiros escondiam as lagrimas envergonhados.