Porque chora a bella Auzenda? O que lhe diz o coração? É por isso que a donzella scismava sosinha ao cair do dia no seu balcão? Seriam receios de noiva a combatel-a, ou saudades de namorada? Baixou a tarde, fechou-se a noute, e quando as estrellas começavam a tremer na abobada do ceu, recolheu-se suspirando. Quasi ao mesmo tempo soava a sineta da atalaya. Donas, cavalleiros e pagens principiavam a entrar no castello, attraidos pelos festejos. As armas reluzentes, as plumas de côres diversas, os tabardos de matizes variegados deslumbravam, vistos á luz dos fachos. O som das trompas, os latidos dos lebreus, os relinchos dos cavallos, e as vozes dos peões animavam de mil ruidos alegres o quadro do noivado. O conde Ordonho sobresaia no meio de todos pela estatura. Era como o carvalho antigo abrigando os arbustos debaixo da sombra. O seu brado vencia o estrepito.

—Pagens! Escudeiros! Fazei honra! exclamava cortejando os recem-chegados com a bocca cheia de riso.

Falta, porem, um homem na festa e com elle tudo falta. A ultima hora do dia, segundo sua promessa, deveria tel-o trazido aos pés de Auzenda, e com a noute cerrada não chegava!... Do lado das montanhas{35} não havia rebate de mouros. As almenáras apagadas não davam signal de inimigos. Que motivo demorava pois o mancebo, quando o amor estava-o chamando tão meigo e desejado? Porque se ausentára n'aquelle dia, em que tantos estremos o convidavam a não se apartar dos bellos olhos que o prendiam? Um juramento sagrado! Um voto! Promettera a Deus, para expiar aos olhos de todos a união das duas casas, passar doze horas ajoelhado sobre o tumulo de seu pae. Por isso deixára Auzenda junto da cruz de pedra ao romper da aurora. Por isso as horas passavam e a saudade impaciente da noiva as contava tão vagarosas!{36}

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[III
Deus seja comnosco]

Na sala de armas do castello soam mil vozes de jubilo. Que luz faisca das malhas pulidas e que reflexos, que cegam, saltam dos dourados capellos! Cavalleiros moços fallam de amores, inclinados sobre os estrados das donas e donzellas. Violas e doçainas acompanham as coplas dos trovadores. Mais adiante, em turbilhões de cem côres, em collos ondeados e graciosos, giram e volteam as dansas, e o olhar furtivo de alguns pares promette, em breve, dias semelhantes a mais de um solar.

Na vasta quadra apparelhada para o festim em quanto os convivas não entram, o vento geme por entre frizos{38} e laçarias dos delgados columnellos. A lua, alta no ceu, entorna pelos vidros corádos das frestas golphadas de luz branca. De repente as trompas quebram o silencio. Avizinha-se, e já se reflete nas paredes, o clarão de muitas tochas. Povoa-se a sala, innundada de luz subitamente. Os escanções enchem as taças e fazem-as circular em roda. Saudes, acclamações, e vozes crusam-se, trocam-se e voam em confusão jovial de um a outro extremo da casa. D. Ordonho parece remoçado. Á sua direita senta-se Auzenda. Da esquerda um escanho vazio aguarda D. Moço Ansures. Defronte, em outro escanho, tambem vazio, estaria o pae do noivo, se podesse deixar a sepultura. Cobre-o um veu de luto.

A meio do banquete as dansas tornam a entrançar os pares como grinaldas vivas do festejo. Pelas portas abertas do alcacer enxameiam incessantemente donas, cavalleiros e monges, convidados pela hospitalidade quasi regia do rico-homem. As taças cheias de licor espumoso correm de mão para mão. D. Ordonho, de pé, alça a sua, e com a fronte erguida brada:

—Á paz dos christãos! Á ruina e confusão dos infieis! «Uma longa acclamação responde á sua voz: «Assim findem todas as discordias entre irmãos!»

Ainda não tinha pousado o vaso na mesa quando, voltando a vista, soltou um grito. Os convivas olharam{39} tambem e ficaram immoveis com as taças suspensas.