—Tu não me dirás o que intentas fazer, Pedro? Tenho medo de ti e do teu risinho.
—Pois não tenha. Hade tudo correr como um brinco, louvado Deus e sua mãe Maria Santissima.
—Mau!... Se me resmungas nomes de santos temos maroteira e grande!... Pedro!... Toma cuidado! Nem uma beliscadura, nem uma picada de agulha no sr. Fr. João.... Não é por elle, é por mim. Nada de graças pesadas! Não me quero ver na cadeia comido de pés e mãos. Leve antes a bréca as terras.
—Ai, tio!.. Não se faça teimoso, e não esteja calumniando as minhas intenções.. Valha-me a Senhora Sant'Anna.
—Mau! Tornas aos santos!... Que é isto?...
—São passos.
—E vozes... Chega á fresta e vê!
Pedro Lavareda obedeceu.
Um vento rijo e chuveirões puxados com força bateram-lhe na cara, apenas abriu o pesado caixilho, e arriscou a cabeça para espreitar o que se passava{87} no rio. O devoto personagem recolheu á pressa o interminavel e esganado pescoço, rosnou duas interjeições apimentadas, e, enrolando um lenço por cima da gola do gibão, tornou a affrontar, porem mais abrigado d'esta vez da furia do aguaceiro. Decorridos instantes de attenta observação, metteu-se para dentro, cerrou o caixilho, e veiu sentar-se defronte do tio, com os sobr'olhos e a bocca franzidos. Trazia estampada no afunilado rosto uma verdadeira elegia.
—Então?!... disse o feitor já sobresaltado com a mimica tetrica do sobrinho.