Os olhos felinos de Pedro, se fossem punhaes, teriam varado o frade, mas como o não eram, contentaram-se com a expressão humilde e hypocrita de uma annuencia servil, ao passo que os labios franzidos arremedavam soffrivelmente um sorriso boçal.
—Macte puer! gritou Fr. João, batendo no hombro de D. Pedro. Tiveste mais juizo tu só, do que nós todos!... Isto é mentira e mentira mal armada. Os hespanhoes no Crato!... Uma batalha sem logar sabido!... Um almocreve invisivel!... Meninos, soceguem! Tia Brizida, alma até Almeida! Romão Pires, enfie-me na baínha esse eterno chifarote, espanto e censura viva das espadas de hoje!...
—Então vossa reverendissima já não quer que ponha de aviso os criados? disse Antonio Rodrigues, que tivera tempo de trocar algumas palavras com o genro, colloquio, que apesar de curto, não escapara a Fr. João.
—Não, senhor. Deixe-os descansados! Bem bastam logo as almas do outro mundo!... Sabe que mais? Sinto-me moido, e uma boa cama depois de uma boa ceia é o melhor remedio para estas molestias. Aonde é o meu quarto?
O feitor esgueirou um volver de olhos interrogador{99} ao sobrinho, que lhe respondeu com um aceno quasi imperceptivel de cabeça, e, pegando em um maciço castiçal de prata denegrido, precedeu a especie de procissão de toda a familia até ao aposento, aonde o douto dominicano havia de passar a noute. A porta abria-se no topo do comprido corredor do centro; a camara de D. Pedro ficava-lhe á esquerda, e o pequeno camarim de Romão Pires á direita. Mettiam-se de permeio dous quartos fechados, e seguia-se a sala aonde D. Maria dormia, tendo ao pé o leito de Brizida de Sousa. O aposento, aonde Antonio Rodrigues conduzia Fr. João, nada inculcava de notavel. Era uma casa vasta, de tres janellas, duas de peitos e uma sacada, cujas paredes abertas em partes conservavam ainda a par de largos pedaços das colgaduras de couro, que em melhores dias as tinham ornado, altos e grandes armarios de pau santo. Os tectos altos e enegrecidos e o pavimento carunchoso, gemendo e estalando com o peso dos passos, atestavam a velhice e o desamparo. Um leito antigo, enorme, com sobreceu e cortinas out'rora verdes, um velador de pau santo arruinado, e um contador, ainda mais antigo, completavam com tres, ou quatro cadeiras coxas dos pés, ou mutiladas dos braços, a mobilia nada commoda, nem opulenta. Cousa singular! N'este quarto, em que a destruição minava, e esfarelava tudo, as unicas cousas intactas e bem conservadas eram alguns{100} paineis grandes, retratos de corpo inteiro de guerreiros, damas, e monges, pintados a oleo, e mettidos em soberbas molduras de carvalho, lavradas de talha alta.
O padre mestre rodeou com os olhos toda a casa, e perguntou, sorrindo-se, ao feitor, se ella passava por ser tambem vexada pelas almas do outro mundo. Antonio Rodrigues abaixou a sua immensa e redonda cabeça, e Brizida benzeu-se devotamente.
—Bem!... N'esse caso é preciso estar armado e vigilante para a batalha! Se escaparmos aos castelhanos do Crato, não quero que acabemos nas garras dos trasgos e diabretes de Tancos. Sr. Antonio Rodrigues, faz favor! Mande trazer para aqui o meu alforge, que ficou na sala de entrada. Sr. Pedro Lavareda (exquisito nome (!)) é bom caçador por certo, e hade ter uma espingarda de mais. Eu tambem gosto de dar o meu tiro de manhã cedo ás perdizes e ás calhandras por essa charneca. Conto levantar-me com o sol, e dar um passeio pelas fazendas, para tornar a ver estas terras em que não ponho os olhos ha um bom par de annos. Para não ir com as mãos abanando levarei a sua espingarda... Não a heide tratar mal, descanse!..
—Essa é boa, sr. Fr. João! A espingarda, eu, e tudo o que mandar estão ás ordens de vossa reverendissima....{101}
—Muito obrigado!... Olhe não se esqueça de me trazer um frasquinho de polvora.
O tio e o sobrinho sairam, e o frade, chamando de parte a D. Pedro e a Romão Pires, e pondo as mãos no hombro de cada um d'elles, disse-lhes em voz baixa: