Teria repousado duas horas, quando despertou sobresaltado. O leito, pesado e maciço, arfava, balouçado{103} como um barco sobre vagas inquietas. O frade entre-abriu os olhos. A vela do castiçal estava em um terço, e a luz da candeia brilhava esperta. O quarto continuava deserto e silencioso. Entretanto o leito não parára de dansar, e, facto mais singular ainda! a roupa da cama fugia de vagar, sem apparecer mão, ou braço que lhe tocasse. Fr. João deixou-se ficar, tomando sómente uma posição que lhe consentisse saltar ao chão de um pulo para travar a lucta com os duendes e spectros. Tinha as duas pistolas sobre o velador á cabeceira, e a espingarda ao pé. Entretanto, apesar de animoso e resoluto, o suor principiava a borbolhar-lhe na testa, e um calefrio suspeito a correr-lhe a espinha dorsal.
—Isto não vae bem! Queria antes ruido, grilhões arrastados.... a scena do costume. Esta calada e estes empuchões invisiveis.... sinceramente sería de fazer tremer as carnes, se eu não soubesse!... Credo!.. Lá se foi a roupa até aos pés da cama.... Não gosto da graça! Que é aquillo? As pinturas andam!?.. Oh!...
Aqui poz termo ao soliloquio, e sentando-se na cama, com os poucos cabellos, que lhe restavam, erriçados em volta da calva, com as feições contrahidas e a boca pasmada, cravou as pupilas cinzentas e dilatadas no painel, que lhe ficava fronteiro e que representava um cavalleiro da edade média coberto de toda a armadura, mas com o rosto sem viseira e{104} os olhos ameaçadores. Aquella figura severa, como que destacada da moldura, parecia mover-se por si lenta e lugubremente. Fr. João quiz duvidar do testemunho dos sentidos, e convencer-se de que era victima de uma illusão. Esfregou as palpebras, beliscou os braços para despertar a sensibilidade, mas o retrato continuava a adiantar-se, e um sorriso tetrico como que lhe franzia os beiços. Ao mesmo tempo os ouvidos afiados do dominicano colheram, não sem grande pavor, o som amortecido de ferros que rangiam, e um gemido longo e soturno, semelhante ao gemido doloroso de afflictivo estertor.
—Vade retro, Satanaz! murmurou saindo da cama cheio de terror. Ne nos inducas in tentatione!
Apenas soltára a meia voz estas palavras, um sopro, semelhante a furacão medonho, engolphou-se pelo quarto, e apagou de golpe as duas luzes.
Fr. João recuou até ás cortinas do leito, e sentiu vergarem-lhe os joelhos, e fugir-lhe o animo. Estendendo a mão nas trevas machinalmente, encontrou uma das pistolas pousadas sobre o velador, e os dedos apertaram tambem machinalmente a coronha.
De repente um clarão sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz sulphurea, e no meio de chammas lividas, surgiu e cresceu uma forma gigantesca envolta nas dobras de sudario branco e fluctuante. Esta figura descommunal, cuja cabeça era uma caveira, lançava chispas pelas cavidades dos olhos, e acenava{105} com os longos ossos de esqueleto. O frade tremeu, e acudiram-lhe aos labios descorados as preces e os exorcismos recommendados pela igreja contra os maleficios infernaes. Mas as armas espirituaes não produziram effeito, e, apesar da perturbação momentanea, tornou a tomar corpo no seu espirito a ideia de que podia ser aquelle espectaculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa fé. Revestindo-se, pois, de valor e decisão, apontou rapidamente ao vulto, que tinha diante, a pistola, que não largara da mão, e disparou-a. Observando que o tiro não causára abalo no phantasma, pegou depois na outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma risada estridente respondeu ao estrondo da explosão, e o spectro, mostrando as duas balas, arremessou-as ao chão, aonde o padre mestre as ouviu rolar. Logo em seguida o clarão sumiu-se de subito, espessas trevas envolveram o quarto. Fr. João, quasi desmaiado, caiu em uma das cadeiras proximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os membros, e paralisado na falla e nos movimentos pelo mais profundo terror.
Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas não eram menos activas e violentas nas camaras dos outros hospedes. Romão Pires, apenas se deitára, e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe{106} pelos pés o magro e aprumado corpo até o estatelarem de pancada e sem dó nas taboas do sobrado. O grito de mêdo e de dor, que soltára estremunhado, teve em resposta um côro de risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabeça, e saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para bradar, era comida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de empurrão em empurrão a levaram aos tombos até ao corredor, aonde veiu encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem accusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.
No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido, sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na intervenção dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado á leitura de um livro novo, que em breve lhe absorveu a attenção. Feriu-lhe de repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos proximos. Apagando{107} a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.
A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber dous vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se debruçava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava d'elle sons roucos e medonhos, caiu ás pranchadas sobre o musico do Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado, principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no braço ao que pareceu, deitou-o pela porta fóra como um vendaval, em quanto o companheiro tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.