D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castiçal e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no chão um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de amarello.
O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gôtas de sangue, caidas no pavimento desde metade da casa até á porta, provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e assignalado. D. Pedro pegou{108} no castiçal, e seguindo o rasto de sangue pelo corredor, notou que parava no topo, aonde só existia uma parede grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. Á porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o vocabulario de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, fallou-lhes, animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de Fr. João.
O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quasi exanime na ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas não se moveu.
D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo triumphante não deixára despojos. Terminado o exame, poz o castiçal em cima do velador, collocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo silencioso, disse-lhe:
—Mas o que foi isto?!..{109}
Fr. João respondeu com um suspiro, e, correu a mão pela testa ainda inundada de suor.
—Estas pistolas disparadas, estas balas no chão!.. Não me dirá o que succedeu?!...»
Outro suspiro mais alto.
—Por onde entraram elles?...
O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco, meneou a cabeça com tristeza, fez um esforço para levantar meio corpo da cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para elle.