—Ah!... Foi por esta porta?... observou o sobrinho, pegando no castiçal e correndo a luz por todo o quadro de cima abaixo. De repente exclamou: Olhe?!
—O que? disse o frade, pondo-se de pé, mas tão abatido e tremulo, como se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.
—Venha meu tio, e veja!
De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um botão debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo á pressão, abriu-se lentamente.
—Ah!.. exclamou fr. João.
—Aqui tem a porta!... e o segredo de tudo.
—Velhacos! bramia o dominicano irritavel, recuperando repentinamente as côres, a elasticidade dos{110} membros, e a viveza dos olhos. Mas abaixando a vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no chão, e uma nuvem torrou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que succedera e ouviu da boca do mancebo a historia da sua lucta com os duendes. Fr. João ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um immenso ponto de interrogação.
—Saiu d'aqui depois de carregar as armas?... perguntou D. Pedro.
—Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romão Pires.
—Foi o que bastou. Não mexeu na espingarda? Está certo?