Assim a tinham visto alguns mais felizes assentada debaixo dos velhos e copados ulmeiros á beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de branco, desnastrando as tranças com um pente de ouro, e cantando aos espiritos do ar com tão maviosa voz, que se cortava o coração de a ouvir.

Accrescentavam ainda, que da aldeia alguem a vira já inclinada sobre o espelho da fonte, caindo-lhe as lagrimas em fio na agua. Uma corsa da côr da açucena, esbelta, e veloz como a seta, acompanhava-a. Se áquella hora qualquer lograsse fallar á moura antes de tornar á fórma de serpente, alcançaria da bella captiva, que era fada, as primeiras tres cousas que lhe pedisse; mas os acasos ditosos são raros, e em cem annos pelo menos não havia{116} lembrança de nenhum. A corsa velava, ao menor ruido batia os pés, e desatava a carreira, e n'um instante desapparecia tudo, como sonho, sem outro signal mais, do que certo fervor ligeiro nas aguas, e uma leve nebrina por entre as arvores.{117}

[II]

Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado o Justiceiro, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos, os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos. No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas, ou favores. Devedor honrado,{118} o principe ajustava logo a sua conta a cada um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e grande pintor de vultos e de cousas.

Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello, construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda, compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem.{119} O pranto da viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde repousavam seus paes, avós, e irmãos.

O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que tinham amanhecido remediados!

D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito{120} nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D. Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.{121}

[III]

Tinha fama de grande monteiro o castellão. Mál o dia despontava, saltava logo no cavallo, e a galope, por sarças e estevaes, por montes e campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até á noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, cães e corseis, salvando valados, e calcando pavêas, arrazaram em minutos o trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas, estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu{122} atraz da pista. Garcia de Marnel, o dono do campo, fôra o melhor besteiro dos sitios. O mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua aljava atravessara sempre o alvo. De avôs a netos esta robusta e laboriosa raça lançára raizes profundas no solo, remido pelo seu braço. Os mais fundos affectos prendiam-a á terra rôta e lavrada com o suor do trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e dos filhos. No altar da egreja haviam sido abençoadas as promessas de mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos álamos, á sua porta, o avô, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graças infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo infortunio.

A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe desfallecera o braço. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do coração, a dor mesmo não lhe prostrára o animo. A esposa, por tantos annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho da vida para ir esperal-o na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flôr seguiram a mãe, em quanto o ancião desgraçado,{123} só e de joelhos não via a seu lado no desterro da vida, êrmo de consolações, senão a infancia fragil e graciosa de Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em um extremo louco e quasi delirante. Só esta saudade, só este amor o prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do ceu, senão depois de a ver mulher e feliz.