Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavallos os fructos de um anno, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces cavadas coráram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de mêdo.
Aquelle campo era o dote da neta, e só por causa d'ella é que supportava o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. «Senhor! Senhor! dizia elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada contra um velho e uma donzella!» O rico homem não respondeu. As matilhas e os cavallos, precipitando-se, partiam á róda d'elle, envoltos em nuvens de pó, e o afflicto lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão das redeas do corsel.{124}
Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando, cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe ameaçou o peito com ás patas «Fóra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do conselho!» Garcia desviou-se quasi cego de dôr, e Sueiro, cravando as esporas nos ilhaes, voou á redea larga por cima das hortas e ceáras, bradando: «Sus! Abóca!»
O açoute infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado. Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um rujido surdo expirava ao mesmo tempo á flôr dos labios. A vida do homem orgulhoso e máu estava á mercê d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente elevou-se ao ceu. Pedia perdão, ou auxilio?
De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram então dos olhos seccos do velho; os braços descairam. Quiz vencer-se e resistir, não pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a bocca murmurou:
«Fôra matal-a tambem a ella!» Enxugando depois as palpebras entregou a Deus o castigo do oppressor.{125}
Mas a desgraça entrára no seu campo com Sueiro Lopes.
O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fôra aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o. Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos, acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre orphã, confiscada caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha, sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa, soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella em edade e formosura; mas á medida que os annos corriam, o rosto pallido e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas faces as lagrimas e não as entendia. É que o pão da esmola, mesmo dado com amor, sempre tráva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando para o tecto da casinha, de que fôra desherdada, apertava-se-lhe o coração por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da sepultura, aonde seu avô descansava, aonde todos os seus dormiam!{126}
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