Sete annos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algoço tinham lançado sobre o corpo de Garcia do Marnel os ultimos punhados de terra. Sueiro Lopes, n'esse intervallo, tres vezes casado, e outras tantas viuvo, cada vez se havia feito mais aspero e cruel.
Mal raiava a manhã as buzinas acordavam logo as solidões. Assim que a noite se fechava, as frestas ponteagudas da torre de menagem, illumminando-se, reverberavam o clarão das tochas do festim. Os gritos, as risadas, as blasphemias da alegria ebria espantavam os que vinham perto do castello. Os{128} vicios do senhor avivaram-se com os annos. Os deleites pareciam-lhe mais doces regados de lagrimas e de sangue. O abutre já não empolgava só a vida e os bens dos villãos; abrazado em ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia. Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores infames a innocencia das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um sorriso, um olhar d'elle era como a fascinação do reptil. Por onde passava, as flores mais frescas, e mais puras caiam desmaiadas.
Silvana contava deseseis annos. Mimosa e esbelta, o setim das faces realçava a terna pallidez, que revestia de tanto enlevo a brandura contemplativa dos olhos verdes e transparentes, aonde a alma retratava os mais suaves affectos. O vivo carmim dos labios abotoando as rosas da bocca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistivel o requebro e a graça virginal da phisionomia namorada. A voz, fresca e melodiosa, insinuando-se no coração, era o seu maior attrativo. Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo, que a fazia palpitar de esperança, quando se mirava no cristal da fonte? Vel-a e cubiçal-a foi tudo a mesma cousa para o rico-homem. Elle, que a um aceno imperioso sujeitava as mais isentas, podia suppor acaso que Silvaninha lhe desse o não fugindo{129} a suas caricias? Mas ás primeiras palavras o rubor do pejo incendiou em chammas o rosto da donzella e nas pupillas de esmeralda fuzilou a ira. Soltando as mãos envergonhada e offendida, furtou-se ás garras do açor. A raiva enlouqueceu o cavalleiro. Um juramento saltou-lhe da bocca por entre sorrisos lividos.
—Não serás esposa sem primeiro seres amante! Pedirás de joelhos o que hoje engeitas! Sei atalhar os rodeios á corsa. Sei aonde o golpe fere seguro!
Deus do ceu compadecei-vos de Silvana! Ella mal o escutou. Tremula e soffocada não suspendeu a carreira senão á porta da cabana aonde morava a velha Aldonça, conselho e consolação de toda a aldeia. As linguas maldizentes affirmavam, que a velha não era decrepita, nem mendiga, mas fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas aguas. Contavam prodigios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar até, que ella e a serpente encantada tinham nascido irmans, e se juntavam em colloquio á meia noute. Quando a donzella appareceu, Aldonça, sentada em um penedo diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou depois a estriga, puxou o fio, e á medida que o fuso girava, e que a linha se enrolava, meneava a cabeça, como se estivesse vendo, ou ouvindo, a muito longe dos sentidos cousa de seu gosto.
—Deus vos salve, filha! exclamou por fim. Sei o que vos traz assim assustada. O açor cubiçou a rolinha?{130} Havia de ser! Estava escripto lá em cima, e o que ha de acontecer muita força tem. Conta-me tudo. O que te disse? O que lhe respondeste?
Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:
—Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o homem. A aguia real já a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do açor não hão de ferir-te. Vai d'aqui á fonte da moura e dize que sim a quem lá encontráres. Não te demores. D'onde se não espera vem o remedio. Has de ser feliz!
Ditas estas palavras, abysmou-se em tão profundo scismar, que parecia morta. Não quiz saber mais a donzella. Voou á fonte com a fé viva dos quinze annos e da esperança. Ao pé do primeiro álamo parou e tremeu. Não vira a serpente, nem a corsa encantada, mas vira um mancebo robusto e gentil, filho do mais abastado cavalleiro villão das cercanias. Porque lhe esmorece a ella de subito a vermelhidão das faces affrontadas da corrida? porque lhe bateu o coração no peito tão atropellado? Tello Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o noivo que as raparigas das cinco aldeias visinhas disputavam com mais inveja. Debalde! A vista d'elle não se baixára para nenhuma, nem a sua bocca se abrira para dizer uma palavra terna á mais galante. Silvaninha fôra a sua{131} primeira e unica paixão. Combateu-a e calou-a por muito tempo, com receio dos pais, mas por fim, não se podendo conter, decidiu-se, e veiu ao logar pedir-lhe a mão. Ninguem sabia o segredo do mancebo senão Aldonça, porque d'essa nada se escondia. E a donzella?... Tinha-o adivinhado nos olhos, que buscavam os seus, e no proprio coração, que, alvoroçado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor. Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Tello estava alli. Sem forças para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe ás faces o rubor em ondas, e a vista não ousou despregar-se do chão. O tremor convulso que a agitava fazia-lhe arfar o seio.{132}
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