[V]

Tello Vasques não estava menos enleado. Corou tambem, e a vivesa natural dos olhos pretos esmoreceu meio offuscada pela sombra das pestanas. Encobrindo que a esperava, quiz saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe, e uma especie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mão suspensa, a cabeça inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do enlevo sem força para dissimular, e ainda menos para combater. Assim ficaram por minutos. Immoveis, calados, contemplando-se, e fallando só com o coração. A felicidade era tão grande, que não achavam termos que a pintassem. Quem encostasse{134} a mão ao peito do robusto besteiro, sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem escutasse o palpitar ancioso do seio de Silvaninha não precisava perguntar-lhe se tambem amava!

Em redor d'elles tudo era paz e serenidade. Por cima o ceu puro recortando-se por entre a cupula frondosa das arvores. Ao lado a agua, sussurrando preguiçosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas relvas que aveludavam o chão. Mais longe, a pequena levada afundava-se com estrepito pelas fendas musgosas dos penhascos debruçados sobre o valle. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos, de pomares, e de campos viçosos, contrastando com o arvoredo sombrio, que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a côr arida e melancolica das charnecas desatando-se até aos cabeços da serra, cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca, mas amena, doudejáva na campina, ramalhando as folhas, brincando com os arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxinóes nas moutas rompiam em trinados os deliciosos gorgeios. A cigarra casava a voz estridula com o coaxar das rãs. As sombras, delgadas ainda, começavam a fechar-se sobre o valle, emquanto os raios do dia amorteciam a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino{135} azul do firmamento e o verde fresco das arvores e plantas.

Quando a ternura mutua os deixou respirar, a donzella, volvendo em si primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de travessa ameaça e disse:

—Vós aqui, Tello! A esta hora, em sitio por onde poucos passam! Que quereis que digam da pobre Silvana, que não tem senão o seu nome?...

A voz era queixosa, e não irada. O timbre harmonioso avivou no peito do mancebo o ardor da paixão. Depois os olhos sorriam animados de malicia tão innocente, que Tello leu n'elles mais do que esperança, leu amor. De repente ficou outro. Pegando-lhe na mão, e beijando-a, a voz soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista d'ella, tornou-se tão eloquente, tão avida de ternura, que ella baixou outra vez as palpebras.

—Silvana! exclamou arrebatado. Quiz Deus que nos amassemos, e que um não podesse viver sem o outro. Meus paes consentem. Dás-me o sim?

O jubilo transformou a phisionomia da donzella. Depois o carmin das faces sumiu-se, e as lindas pupillas, um momento radiosas, molhando-se de lagrimas, lançaram sobre o rosto as sombras da mais resignada tristesa. Sem retirar, ou entregar a mão, que o mancebo prendia nas suas, a neta de Garcia{136} do Marnel, esquecido o conselho de Aldonça, respondeu singelamente:

—Tello, não vos darei já o sim; não quero arrepender-me. O filho de Ayres Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, não deve escolher a sua noiva entre as donzellas mais pobres e desvalidas de Algoço. Amo! Porque hei de negal-o? Mas pelo muito amor é que receio acceitar. O que ha de trazer em dote a orphã sustentada pela caridade dos visinhos senão lagrimas e saudades d'aquelle chão, aonde dorme sem vingança, porque ninguem lh'a deu, ou pode dar, o velho que duas vezes foi seu pai, e que por ella morreu de dôr? Não, Tello! Não pode ser!

Fallando assim, tremula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo admirava-a silencioso. As lagrimas deslisando-se, os olhos que a dôr fazia irresistiveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmesa a magoa intima, por tal modo lhe realçavam a formosura, que o besteiro não sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali captivo de mil attractivos. Attraindo-a, depois, com impeto, e unindo-a ao peito, elle, o homem forte, o filho de uma raça leal e rude, como o seculo em que vivia, sentiu rebentar o pranto, e não se envergonhou de o deixar correr.