—A tua vontade, Silvana, será a minha! disse por fim. Mas por amor te quero, e não é justo que{137} por amor te perca. O que vale dizer a bocca não, se os olhos, mau pesar teu, estão dizendo sim? Dizes que o dote que me trazes é de lagrimas e pobresas? Nunca fui mais rico. Estas lagrimas piedosas da filha promettem venturas ao marido. E a puresa d'esse coração é o teu maior thesouro. Hontem não podia viver sem ti, hoje morria se te perdesse. Silvana!... Não n'o escondas! O senhor tentou-te de amores, e jurou vingar-se dos despresos? Socega! Deus será comnosco. O meu arco não erra. A seta vae sempre aonde a mando!

Não cedeu ainda a donzella, mas Tello não se enganára: o coração desmentia a bocca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e accêsa em pejo desappareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado, que no seguinte dia iria Tello ao solar pedir licença a Sueiro Lopes. Os noivos sem ella não podiam receber-se na igreja de Algoço, e Silvana desejava tanto que seus amores fossem abençoados, aonde o tinham sido os de seu pai e seu avô, que o besteiro não ousou contrarial-a. Altos juizos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzella pagaria todas as culpas da sua geração, todos os crimes da sua vida.{138}

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[VI]

Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro, correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos que findava á porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e folgando, em quanto os moços de monte sustinham das tréllas as matilhas impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos alaridos dos caçadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e cerdosa sacrificada depois de aturada{140} fadiga e renhido combate, segundo attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os mais valentes e fugosos cães.

Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso, trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava, entre chufas e galhofas, a oração funebre do pingue eremita, que todos haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.

D. Sueiro, que se apartára d'elles ao pé da fonte da moura, era o unico serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda, e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoço? Nas trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a visão terrivel, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes avisava a cabeça da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios arrependimentos? Ao pé da fonte apeiou-se, e, com a cabeça entre as mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido dizia que o espirito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido o rico-homem levou a mão ao punho da espada, inculcando sobresalto sem receio. O mêdo{141} nunca entrára n'aquelle peito inaccessivel á piedade.

—Quem és? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas no cinto, se lhe descobria subitamente.

Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas accusavam, assomou-lhe ás faces morenas um leve rubor e as pupillas negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais força os copos da espada.

—Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!