A firmesa do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavalleiro. Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os beiços.
—O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoço, fóra do seu castello, n'este logar deserto?
A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.
—Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.
—Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço então. Como se chama?
Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as furias do ciume se levantaram{142} no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e retorquiu:
—A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.
—A Silvaninha? A perola de Algoço? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pões alto o pensamento, villão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a servos.
Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o braço a Tello. A mão procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:
—Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o resgate de um barão? Cuida o villão que eu havia de enterrar na sua posilga a roza dos nossos sitios?