—Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.
—Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o pé no estribo e sacudindo o látego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com mil ameaças nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisavô te juro, que tantas noutes dormirás na cisterna do meu castello, que de lá te arranquem cego e doudo!{143}
—Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. Só Deus sabe aonde vós dormireis hoje!
O cavalleiro ja tínha cravado esporas no corsel, e começára a levantar o galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as, parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:
—Villão! Não has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer de fios de ortigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim, dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! uma das camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar com ella no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!
A esperança acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco, fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os pés arraigavam-se ao chão. A mão inerte não se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou então ao ceu a vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas{144} arvores sem elle o sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade, orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illusões lhe sorrira alegre, e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da existencia.{145}
[VII]
—O açor encontrará a aguia. Sinto-a já voar! Não chores, Silvana, serás feliz. Diz-to quem o sabe! Tello!.. A frecha do teu arco pode descansar na aljava. Esta noite, á meia noite, ide ambos ao cemiterio da igreja. Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as ortigas crescem e estão n'ella viçosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e duas, e traz-m'as no regaço á fonte da Moura. Vespera de S. João ha de torcer-se o fio. As duas camisas não hão de faltar. A semana que vem será a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A aguia não tarda. Enxugai os olhos.{146}
E a velha Aldonça, dizendo isto, ria-se com aquelle ar que fazia da feiticeira a amiga de todos os afflictos. D. Sueiro puzera por condição, que só daria o sim, se a donzella lhe fiasse e tecesse de ortigas da sepultura do avô duas camisas.
—Queres acompanhar-me, Tello? atalhou a donzella suspirando.