Á noute era um prazer e um exemplo, observal-o sentado na immensa poltrona de couro, com a ama á direita e o cão somnolento á esquerda, a velha cabeceando de rocca á cinta e engrolando Padres-nossos, o animal piscando os olhos com uma orelha fita e outra derrubada. Dos dous companheiros do serão o mais attento e sisudo era de certo o cão! Medindo sempre o dono com a vista, o mastim nunca perdia occasião de lhe coçar o focinho pelo joelho, quando suppunha o ensejo favoravel. O bofete de pau santo e pés torneados, o candieiro de latão e a anarchia dos papeis completavam o pitoresco painel do lar domestico. Passada uma hora, o unico que não dormia era o Vigario; a sua penna continuava a ranger sobre o papel, ao som dos roncos assobiados da tia Brizida. Quando as palpebras se lhe faziam pesadas, o prior arrastava a cadeira, mettia dous dedos na argola do candieiro, e recolhia-se ao quarto no meio das recommendações da ama sobre os perigos do fogo, sobre a falta de cuidado no abafo, e sobre mil outros casos provaveis. Estas recommendações não se calavam, senão quando a respiração alta e compassada do ouvinte convenciam a oradora do effeito suporifero da sua eloquencia.
Em um d'estes serões, a que assisti, caiu o dialogo sobre não sei qual de nossos reis, e o Vigario{18} innocentemente deixou escapar o segredo das suas vigilias. A curiosidade de comparar a escripta do solitario com o seu talento de narrar, obrigou-me a pedir-lhe, sem attender a desculpas, que me lê-se alguns Contos e Lendas. Oxalá que o leitor seja do meu voto. Ainda me não arrependo do que disse d'elles ao auctor, que tremia, como se a minha opinião valesse alguma cousa. Não os reputei perfeitos, longe d'isso, mas asseverei-lhe que seriam talvez folheados sem fastio. Arriscaria um juizo temerario?!... No seu acanhamento o prior sempre resistiu a apurar o manuscripto para a imprensa, e quando m'o entregou, pouco antes da sua morte, foi com a final e irrevogavel condição de nunca descubrir o nome do auctor, se me atrevesse a importunar os prelos (assim se expressou) com as puerilidades de um velho creança. Possam os Contos e Lendas do padre Vigario, cuja ultima vontade estou cumprindo, merecerem alguns momentos de attenção, não por si, mas pelas memorias que recordam. Correm já sujeitos ás vecissitudes da publicidade tantos filhos espurios da mesma invenção, que mais esta, entrando no mundo das lettras, não usurpará de certo logar, que pertença de direito ás obras primas dos poetas festejados. Em todo o caso, sem audacia não ha fortuna. Lanço-a á corrente!... A sorte bôa, ou má que faça o resto!
Valle, 30 de septembro de 1866.{19}
[A TORRE DE CAIN]
[LENDA DO SECULO XI]
[I
De um bom irmão um mau christão]
O monge começou assim a sua historia:
No tempo em que os walis de Cordova tinham quasi todo o reino sujeito, é que succedeu o que vou contar. Estava o conde D. Henrique a entrar por dias, e com elle vinham boas lanças para o ajudarem a resgatar do poder dos infieis as provincias de Portugal. A essa hora nos castellos da fronteira não se descansava de dia, nem de noite; ninguem despia as armas; e quer luzisse a manhã, quer cerrasse a tarde, o clarão das almenáras, ou o rebate das trombetas não consentia nem leve repouso aos defensores da verdadeira lei. Nas ameias, ou no{20} campo da peleja, não se socegava um momento. Os melhores castellos ainda tinham a voz dos descridos; muitas terras pagavam-lhes tributo; e as bellas tapadas do Minho e do Alemtejo eram para elles correrem os veados, os ursos e os javalis. Do marmore de nossas pedreiras arrancavam as columnas e as ricas laçarias de seus paços. Tudo na abençoada primavera d'este formoso jardim chamado Portugal era dos sarracenos e em tudo punham o seu deleite. Nas campinas floridas, em que a lua nasce suave como sorriso infantil, e o ceu brilha radioso como olhar de virgem namorada, a tristeza até parecia desmaiar o sol. Antes de o tragar o inferno, cujo é, o arabe sensual passava pelo paraiso, que nos tinha roubado! Por isso a saudade do que perdeu lhe punge tão viva hoje o coração!...
—E não havia cavalleiros, que lhes estalassem as lanças no peito, bradando: esta terra é nossa! acudiu Martin Paes.
—Havia! redarguiu o frade. Mas eram poucos. N'aquelles dias de captiveiro todos inclinavam a fronte, regando de lagrimas os sulcos da charrua, guiadas por mãos de escravos. Deus exalte o braço victorioso, que nos deu outra vez a terra de nossos paes, que fez nossos, a casa em que abrimos os olhos, o cemiterio aonde dormem os que nos amaram, a arvore que nos cobriu com a sombra a infancia e a velhice, e a fonte que ferve ao pé do rosal!...{21} N'aquelle tempo, quando o mouro passava, baixavam todos a vista, porque elle era o senhor.