—Mas a terra havia de ser então quasi um deserto, padre?

—Não. As espigas douravam-se nas searas como agora; os campos vestiam-se de relvas e de arvoredos; as noras gemiam nas hortas; e os gados pastavam nos montes. Mas a terra, tão alegre por fóra, toda era magoa e desconsôlo por dentro; porque a terra, em que sômos escravos, mesmo que seja a da patria, parece-nos mais só e vasia, do que um êrmo. A casa alheia, a courella que é de outro, e o fogo accêso na lareira a medo, fazem-nos chorar, porque nada d'aquillo é nosso, e hoje, ou amanhã, podem dizer-nos: sáe! O reino vivia, como vive agora; o que estava morto era o coração do homem. Resplandecia o mesmo sol, corriam as mesmas aguas, nasciam as mesmas flôres; porém as creanças não brincavam por baixo dos pampanos da vinha, como brincam estas; e a donzella assustada, tremendo de se vêr formosa, não se assentava tranquilla, como aquella, debaixo da amendoeira em flôr ouvindo descantar o rouxinol por cima da cabeça. O harem do sarraceno, aberto diante d'ella, como um abysmo, fazia-a empallidecer. De um momento para outro podia ser obrigada a escolher entre a deshonra e a morte.{22}

—Que martyrio não seria a vida assim?!...

—Era! Foi!... Mas viveu-se, e por quantos annos!... O dia declina. Faz-se tarde. Quereis que continue?

—Oh, de certo. Fallae!... Todos vos ouvimos.

—No tempo que disse, lavrava a discordia entre dous ricos homens nas terras de Alem-Douro, afirmavam uns que por amor dos lindos olhos de certa dama, juravam outros que por causa da aposta de um cavallo. De seus castellos os dous inimigos, postos defronte, corriam o campo talando vinhas, pomares e cearas, e mal um se descuidava, o outro, assaltando-o, vinha logo acordal-o a ferro e fogo. Em suas mesnadas, ou companhas de homens d'armas, ardia a guerra em toda a furia. Nos casaes assolados de ambos, o solarengo ou o pastor nunca sabia se ao anoutecer recolheria os frutos, e os rebanhos a salvo, ou se despertaria ao clarão das labaredas, para enterrar algum dos seus assassinado.

Por fim o cavalleiro mais velho accommetteu o paço acastellado do contrario, e tomou-o á traição, deixando a cabeça do senhor cravada nas ameias. Aconteceu isto vespera de S. João, por alta noute, quando todos festejavam o bemdito Santo com fogueiras, cantigas e follias. O cavalleiro tinha um filho e um irmão. O filho de edade tenra; o irmão temido{23} pela indole e pelo braço. Entraram e sairam os annos assim; a creança fez-se homem; e de parte a parte a aversão das duas familias cada vez crescia mais. O rio que as separava, tingiu-se de sangue por muitas vezes, e os sinos não cessavam de dobrar na egreja pelos que morriam. O tempo, que tudo gasta de dia para dia, parecia avivar mais aquella rixa. A este tempo o herdeiro do cavalleiro assassinado era já um mancebo louvado pela destresa nas armas e pela prezença gentil a cavallo e nos saráus. Chamava-se D. Moço Ansures, e vendo-o passar, esbelto e affogueado da carreira, com o falcão no punho, as donzellas sorriam-se e córavam, e os homens saudavam-o admirando a fiel imagem do rico homem morto na vespera de S. João.

D. Moço ainda não dissera a mulher nenhuma: amo-te! Um dia, por desgraça, viu a neta do senhor do solar inimigo, e logo o coração esquecido da vingança guardou para sempre a doce imagem. O sangue do pae derramado á falsa fé, as malquerenças de tantos annos, as promessas da meninice e da juventude, tudo d'ahi em diante se apagou da sua alma para não vêr outro sol, outra luz, senão a dos bellos olhos, que o tinham feito seu captivo. Segredos de Deus! Do maior odio rebentou o mais constante amor!... Correram mezes, e o affecto escondido saltou aos olhos de todos. Os parentes lançaram{24} em rosto ao mancebo a sua fraqueza, mas a paixão pôde mais, que as memorias do tumulo, que deixava sem vingança. Por ultimo, cansados das guerras dilatadas, os rancores cederam, e o casamento ajustou-se. Uma rosa veiu unir as duas casas inimigas. O sorriso de uma dama veiu aplacar no sepulcro os que não podiam dormir o somno eterno, e os que haviam jurado não perdoar. Aprazou-se para vespera de S. João o ditoso enlace. Seria proposito, ou acaso? N'esse dia contavam-se justamente quatorze annos, que o pae de D. Moço de Ansures fôra assassinado.

O homem põe e Deus dispõe!

O cavalleiro morto tinha, como disse, um irmão, que lhe queria mais do que á propria vida. Haviam nascido ambos vespera de S. Pedro, e escusado fôra procurar mais do que uma vontade e um affecto nas duas almas. D. Inigo Lopes, era o nome do irmão mais novo, andava ausente. Acertou chegar de longe, quando estavam pregando as taboas do caixão do infeliz. A dôr fez de D. Inigo uma estatua, e sete dias com sete noutes o viram todos jazer deitado sobre a sepultura. Parece que a terra, comendo-lhe os ossos do irmão, consumia ao mesmo tempo n'elle tudo que tinha de humano. Quando rompeu a alva do oitavo dia, e se levantou, trazia a cabeça e as barbas brancas como neve. Envelhecêra ali um seculo em sete dias! Nem um lagrima nos olhos seccos! Nem{25} um soluço do peito mudo. Deixou sobre a campa espada e arnez, e levou só comsigo o punhal. Ao entrar ainda fizera o signal da cruz, mas, saindo, Jesus! voltou as costas ao altar. Os anjos nos defendam!